Reflexão do oncologista
Medicina baseada no sofrimento: um paradigma para a prática da oncologia sob uma perspectiva humanística

Por Prof. Dr. Auro del Giglio

O paciente com câncer nos procura porque sofre. Sofre fisicamente, tem medo do que há por vir, se sente muitas vezes inseguro com as alternativas de tratamento disponíveis e, em casos mais sérios, se defronta com sua própria mortalidade. Neste cenário multidimensional de seu sofrimento, que pode assumir características físicas (dor, náusea, dispneia), psicológicas (depressão, ansiedade), socioeconômicas (medo de não poder trabalhar) e espirituais (significado da vida, enfrentamento da morte), o doente que nos procura espera continência para todas estas facetas do seu sofrimento. Treinados que somos, como médicos, para nos defrontarmos especialmente com a dimensão física, como pessoas não podemos nos omitir de abordar estas outras dimensões do sofrer para as quais, todavia, não temos adequada formação. Como permitir ao médico ser continente destas outras dimensões sem conflito com a prática de uma Medicina Científica (MC) é o paradigma que pretendo introduzir como Medicina Baseada no Sofrimento (MBS). Percebemos que a MBS se foca no sofrimento do paciente, não na sua doença. 

A Medicina Baseada no Sofrimento pressupõe a prática da Medicina Científica em sua plenitude baseando-nos nas melhores e mais atualizadas evidências científicas

Ainda que o sofrimento tenha tido início com a doença física, o foco na enfermidade como entidade fisiopatológica, cuja compreensão poderá levar à sua erradicação ou mitigação dos sintomas orgânicos é da MC. A MBS pressupõe assim a prática da MC em sua plenitude baseando-nos nas melhores e mais atualizadas evidências científicas disponíveis. De fato, sem a prática da MC, não pode haver MBS, que serve apenas de complemento à MC, e é praticada em paralelo a ela. Como se pratica a MBS? Penso que devemos seguir a mesma rotina da MC, ou seja, anamnese, integração e interpretação dos achados e proposição de opções terapêuticas. Vamos agora discutir cada uma destas etapas da MBS.

A anamnese do sofrimento do paciente deve compreender os aspectos da sua narrativa de vida e como a enfermidade está mudando essa história. Nos interessam em particular as mudanças laborais, nos relacionamentos familiares e não familiares, o impacto socioeconômico que está se produzindo na vida do doente e de seus dependentes e as implicações espirituais que essa experiência lhe está trazendo. Requer-se do médico interesse, tempo e um ouvido atento para escutar nas entrelinhas do que é falado para captar todas essas informações. O médico deve então incluir todas essas informações e dados e elaborar um construto. Esse será então um construto específico e individualizado para cada paciente do seu sofrimento e servirá de base para as demais etapas da MBS.

A seguir, esse construto deve ser interpretado e nessa etapa necessitamos de habilidade hermenêutica munida de conhecimentos das Humanidades como, por exemplo, a literatura, sociologia, filosofia, antropologia, psicologia e religião. Entendemos por Hermenêutica a capacidade interpretativa que o médico deve ter para poder analisar o construto do sofrimento do paciente e dele extrair ideias para propor uma abordagem terapêutica.

O cerne do tratamento preconizado pela MBS é a ressignificação do sofrimento do paciente a partir da hermenêutica de seu construto do sofrimento. Ao ressignificarmos o sofrimento de um paciente, nós o mitigamos ao lhe ajudarmos a desvelar para si uma nova forma de enfrentá-lo com maior facilidade. Por exemplo, o indivíduo com câncer terminal que consegue resolver preocupações existenciais como a reconciliação com filhos, cônjuges e amigos pode, como resultado do impacto da doença em sua vida, conseguir algo que parecia inatingível antes do seu diagnóstico. O sofrimento lhe trouxe assim uma nova harmonia e paz em seus relacionamentos e essa conquista, portanto, lhe permite ressignificá-lo e assim promovê-lo a um patamar muito mais favorável. Da mesma forma, uma paciente durante um duro período de tratamento quimioterápico adjuvante para câncer de mama pode reconhecer e aceitar que seu relacionamento conjugal é inadequado e lograr uma separação que poderia demorar muitos mais anos sem o advento do câncer. Nesse caso, a doença lhe economizou anos de uma vida insatisfatória e, portanto, a consciência desse fato ressignifica o sofrimento experimentado durante a adjuvância, dando-lhe um outro sentido.

Requer-se do médico interesse, tempo e um ouvido atento para escutar nas entrelinhas do que é falado

A ressignificação pode ainda envolver outros recursos auxiliares como a terapia filosófica e a biblioterapia que podem ser úteis especialmente para auxílio em caso de conflitos existenciais e espirituais. Essas técnicas terapêuticas se baseiam na escolha de textos específicos que abordam problemáticas ora enfrentadas pelos pacientes com o intuito de aprofundar sua reflexão e quiçá auxiliá-los a pautar sua ressignificação. Da mesma forma, o aconselhamento pelo médico sugerindo uma troca de trabalho, ambiente, férias, estratégias para lidar com situações difíceis etc. pode também auxiliar o ser que sofre a melhor enfrentar o sofrimento resultante de sua enfermidade. A MBS, portanto, em paralelo à MC, confere ao médico a possibilidade de, sem nenhum conflito metodológico, focar sua atenção a aspectos não estritamente físicos que compõem o construto multidimensional do sofrimento de cada paciente. Da hermenêutica desse construto, o oncologista poderá abstrair dicas para auxiliar a ressignificação desse sofrimento e assim mitigá-lo. Para isso, precisamos nos treinar a ouvir mais e melhor os nossos pacientes. Precisamos de tempo que não precisa, necessariamente, ser extraído de uma primeira consulta, mas sim de consultas subsequentes. Necessitamos também adquirir uma formação mais sólida das humanidades para aperfeiçoar nossa capacidade hermenêutica. Desta forma, mudanças curriculares serão necessárias para facultar a futuros oncologistas maior sensibilidade para todas as facetas do discurso de seus pacientes. Começamos nossa jornada na oncologia como cientistas e deveríamos, para o bem de nossos doentes, paulatinamente nos convertermos também em humanistas.

Prof. Dr. Auro del Giglio

Professor Livre Docente pela Faculdade de Medicina da USP, Professor Titular de Hematologia e Oncologia da Faculdade de Medicina do ABC, editor-chefe do Brazilian Journal of Oncology (BJO), associado SBOC e ganhador do Prêmio Ronaldo Ribeiro de Carreira em Oncologia Clínica em 2022.

del Giglio, A. Suffering-based medicine: practicing scientific medicine with a humanistic approach. Med Health Care Philos 2020 Jun;23(2):215-219.

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