Reflexão do oncologista
Descentralização da oncologia: Estratégias para ampliar o acesso e reduzir desigualdades regionais

Dra. Kalysta de Oliveira Borges

Em diversos países, incluindo o Brasil, verifica-se uma expressiva centralização dos serviços de saúde, acompanhada de disparidades significativas no acesso, especialmente no que se refere à concentração de médicos oncologistas nas capitais e grandes centros urbanos. Em contraste, regiões remotas e periféricas enfrentam uma grave escassez de especialistas. Pacientes em áreas rurais ou isoladas frequentemente lidam com longos períodos de espera e desafios logísticos para acessar tratamentos oncológicos.

A presença de oncologistas nos interiores possibilita atendimentos mais ágeis e próximos. Esse vínculo com as comunidades locais favorece uma compreensão mais detalhada das realidades socioeconômicas e culturais, o que aprimora a comunicação, facilita a adesão ao tratamento e contribui para mitigar desigualdades.

Adicionalmente, a descentralização de especialistas fortalece a rede de cuidados integrados, com enfoque nas doenças mais prevalentes e específicas de cada região. Essa estrutura facilita a implementação de programas de rastreamento e diagnóstico precoce, ampliando as chances de sucesso no tratamento do câncer. 

No entanto, fazer oncologia em regiões remotas apresenta desafios significativos, como limitações estruturais e de logística para o transporte de medicamentos, insumos e pacientes; ausência de parques tecnológicos; sobrecarga no poucos especialistas disponíveis; e barreiras socioeconômicas que podem comprometer a adesão ao tratamento e dificultar o diagnóstico precoce.

Os “Brasis” do Brasil

O Norte do Brasil é a maior região em extensão territorial do país, ocupando aproximadamente 45% do território nacional, mas sua densidade populacional é a menor. A densa floresta, rios extensos e áreas de difícil acesso tornam a construção de rodovias e a oferta de serviços como saúde e educação mais complexas na região. Muitas áreas dependem de transporte fluvial para a mobilidade populacional.

No final do ano de 2008, mudei-me com a minha família de Uberlândia, Minas Gerais, para Santarém, no oeste do Pará, atendendo ao convite da gestão do recém-inaugurado Hospital Regional do Baixo Amazonas Dr. Waldemar Penna (HRBA). O hospital, responsável por atender mais de 1 milhão de habitantes de 30 municípios da região, lançou o desafio de implantar o primeiro serviço de oncologia da área, e fui convidada a integrar a equipe pioneira para este desafio.

A implantação e a operacionalização desse serviço enfrentaram desafios substanciais, sendo o isolamento geográfico um dos mais críticos. Em uma área de grande extensão territorial, com apenas 97 km2 de urbanização, os pacientes da região enfrentavam longas distâncias para acessar serviços de saúde. A escassez de exames preventivos e diagnósticos precoces nas comunidades tradicionais – como indígenas, ribeirinhas e quilombolas – aliada à carência de profissionais médicos nas localidades e à demanda reprimida, resultava em diagnósticos tardios de diversos casos oncológicos.

Com um esforço conjunto e colaborativo, porém, o serviço de oncologia local foi habilitado como UNACOM (Unidade de Alta Complexidade em Oncologia) em 2011, firmando-se como referência no cuidado integral ao paciente oncológico da região oeste do Pará.

Diversos projetos extramuros foram implementados para superar barreiras geográficas, além de melhorias na linha de cuidado por meio da integração entre os níveis de atenção primária, secundária e terciária, garantindo um fluxo mais eficiente e resolutivo para os pacientes. Destacaram-se ainda as adaptações culturais específicas para as populações tradicionais, uma vez que o HRBA é referência regional no atendimento à saúde indígena.

À equipe assistencial coube a responsabilidade de idealizar estratégias e promover adaptações específicas preservando a identidade cultural dos povos tradicionais, como a substituição de macas hospitalares por escápulas específicas para redes, uso de alimentos tradicionais, como raízes, tubérculos, carne de caça, frutas nativas, grãos e sementes, e preparações específicas de cada etnia ou comunidade.

Houve ainda adaptações de agendamento de protocolos de tratamento às chegadas dos barcos e “ambulanchas” das comunidades distantes, mitigando fragilidades operacionais, com humanização e busca da equidade no acesso terapêutico; ampliação das chamadas “casas de apoio” para acolher os pacientes em tratamento fora de domicílio, em parceria com as secretarias de saúde municipais e a sociedade civil organizada; e oficialização do HRBA como Hospital de Ensino, permitindo a consolidação dos programas de residência médica e multiprofissional em associação com as universidades locais, incluindo oncologia clínica e cirúrgica. 

Em resumo, a personalização do cuidado e a descentralização dos médicos oncologistas são estratégias fundamentais para ampliar o acesso ao tratamento, mitigar desigualdades regionais, melhorar a qualidade da assistência e fortalecer a integralidade do sistema de saúde. Essas abordagens garantem que um número maior de pessoas, independentemente de sua localização geográfica, tenham acesso oportuno a cuidados oncológicos em tempo hábil.

Trata-se de um trabalho profundamente enraizado na empatia e no respeito às singularidades culturais e sociais de comunidades que carregam histórias, tradições e desafios únicos. Cada diagnóstico e tratamento não representam apenas a luta contra a doença, mas também a reafirmação do compromisso com a equidade e a dignidade, promovendo a saúde em territórios onde a vulnerabilidade muitas vezes é a regra.

Embora o processo tenha sido repleto de desafios, os resultados obtidos são contínuos e transformadores. Cada avanço, por menor que seja, reflete o esforço constante e a dedicação para superar obstáculos na jornada de interiorização do atendimento oncológico.

A personalização do cuidado e a descentralização dos médicos oncologistas são estratégias fundamentais para ampliar o acesso ao tratamento, mitigar desigualdades regionais, melhorar a qualidade da assistência e fortalecer a integralidade do sistema de saúde.

Dra. Kalysta de Oliveira Borges

Oncologista clínica e hematologista.
CRM-PA: 9653 | RQE: 2669 | RQE: 4767

Responsável técnica pelo Setor de quimioterapia anti-neoplásica do Hospital Regional do Baixo Amazonas; coordenadora e docente do serviço de Residência Médica em Oncologia Clínica da Universidade Federal do Pará; e Representante Regional da SBOC no Norte de 2023 a 2024.

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