Reflexão do oncologista
Chat GPT e inteligência artificial na oncologia: avanços e possibilidades

Nós oncologistas somos treinados a memorizar estudos clínicos e seus resultados de forma sistemática. Quando discutimos um caso clínico, nosso raciocínio sempre busca identificarem qual estudo o perfil do paciente se encaixa e, a partir de então, nos sentimos seguros e respaldados em nossas condutas. Citar artigos e mostrar nossa capacidade de memorizar e discutir a lógica da nossa conduta mostra nossa competência no tema e nos destaca perante outros colegas.

Em 2015, a IBM lançou o Watson for Oncology (WFO), um assistente de decisão através da inteligência artificial. O WFO foi desenvolvido pela IBM Corporation (dos Estados Unidos) com a ajuda dos principais oncologistas do Memorial Sloan Kettering Cancer Center. A IBM investiu 4 bilhões de dólares no projeto e, em 2021, anunciou a saída do mercado da saúde.

Acredita-se que a falha da companhia foi focar na venda dos produtos, sem trabalhar a robustez de seu sistema, com metodologia correta e banco de dados não enviesados. Pessoalmente, acredito que os oncologistas associaram usar a ferramenta com a ideia de fragilidade de conhecimento: “Eu não preciso disso! Tenho todos os estudos na minha cabeça…”

Mais recentemente, grandes modelos de linguagem (LLM), como ChatGPT e GPT-4, estão fazendo progressos significativos em direção ao desenvolvimento da Inteligência Geral Artificial (AGI). Essas ferramentas, diferente do Watson, chegaram de forma mais democrática. Começamos a usá-las até como forma de recreação. O custo baixo facilitou sua disseminação não somente na medicina, mas em todas as áreas que possamos imaginar.

Desde o seu lançamento em novembro de 2022, o ChatGPT passou por extensos testes em uma variedade de disciplinas para garantir que funcione de forma natural e conversacional. Modelos de linguagem, como o ChatGPT, aumentaram consideravelmente e vem ajudando a educação e a pesquisa médica.

Uma das principais preocupações em relação à AGI na área da saúde é o risco de fornecer aconselhamento médico impreciso. Como o conteúdo gerado por IA é baseado em grandes quantidades de dados da internet, existe a possibilidade de que as informações fornecidas possam ser enganosas ou totalmente incorretas. Por exemplo, o ChatGPT pode oferecer sugestões de tratamento que estão desatualizados ou não são adequados para a condição específica de um paciente.

Tais imprecisões podem resultar em pacientes recebendo tratamentos inadequados ou até mesmo agravar seus problemas de saúde.

No entanto, quer esses avanços tecnológicos sejam uma bênção ou uma maldição depende de como eles são utilizados. Grandes modelos de linguagem podem ajudar na tomada de decisões clínicas e na educação médica. De acordo com uma pesquisa de Kung et al.1, o ChatGPT atingiu o nível de aprovação ou próximo a ele para todos os estágios dos Exames de Licenciamento Médico dos Estados Unidos.

Pesquisador da Universidade do Tennessee (EUA), Dr. Som Biswas explica que o ChatGPT pode revolucionar a redação médica, acelerando o processo e economizando tempo. Outros benefícios seriam: reunir dados, ajudar nas pesquisas bibliográficas e produzir um documento preliminar que o médico escritor pode então refinar. Esse software tem o poder também de ajudar na eficiência diagnóstica de pacientes, fornecendo um resumo de seus vastos registros médicos com base em seu histórico familiar, resultados de laboratório e sintomas. Como o ChatGPT carece de pensamento crítico e fornece informações de forma redundantee arbitrária, muitos cientistas e periódicos, ainda assim, se opõem a ele.

Na minha opinião, o ChatGPT pode ser uma bênção para a educação e pesquisa médica. Ele tem o potencial de fornecer acesso instantâneo a uma vasta quantidade de informações médicas e pode ajudar estudantes de medicina e pesquisadores na análise de complexos dados médicos. Além disso, pode fornecer experiências de aprendizagem personalizadas para estudantes de medicina, adaptando as informações a seus estilos e preferências de aprendizagem.

As respostas produzidas pelo ChatGPT também são baseadas em padrões e tendências nos dados nos quais foram treinados, portanto, eles nem sempre oferecem um conhecimento completo ou matizado de uma ideia ou situação médica específica. Consequentemente, é crucial garantir que estudantes de medicina e os pesquisadores estejam cientes das limitações da ferramenta e o utilizem como complemento, e não como um substituto de técnicas convencionais de aprendizagem e pesquisa. Considerando tudo isso, o ChatGPT tem potencial para ser uma ferramenta útil na pesquisa e educação médica, mas deve ser usada com cuidado e com consciência de suas limitações.

Se voltarmos um pouco na história, o tímido médico francês René Laennec criou, em 1816, o primeiro estetoscópio por vergonha de ter de encostar o ouvido no peito de suas pacientes e foi inicialmente rechaçado, pois estava criando algo que traria mais distância entre médico e paciente. Quem hoje questiona o valor do estetoscópio?

Seguiremos mostrando nosso conhecimento e nossa capacidade de memorizar e discutir com lógica nossas condutas, mas precisaremos ainda aprender a fazer as perguntas certas para utilizar com sucesso essas novas tecnologias que já fazem parte do dia a dia dos futuros médicos que estão nascendo hoje.

O ChatGPT tem potencial para ser uma ferramenta útil na pesquisa e educação médica, mas deve ser usada com cuidado e com consciência de suas limitações

Dra. Alessandra Morelle

CEO e co-fundadora da Startup Thummi e oncologista do Grupo Oncoclínicas em Porto Alegre (RS)

Kung TH, Cheatham M, Medenilla A, Sillos C, De Leon L, Elepaño C, Madriaga M, Aggabao R, Diaz-Candido G, Maningo J, Tseng V. Performance of ChatGPT on USMLE: Potential for AI-assisted medical education using large language models. PLOS Digit Health. 2023 Feb 9;2(2):e0000198. doi: 10.1371/journal.pdig.0000198. PMID: 36812645; PMCID: PMC9931230.

 

Biswas SS. Role of Chat GPT in Public Health. Ann Biomed Eng. 2023 May;51(5):868-869. doi: 10.1007/s10439-023-03172-7. Epub 2023 Mar15. PMID: 36920578.

 

Roguin A. Rene Theophile Hyacinthe Laënnec (1781-1826): the man

behind the stethoscope. Clin Med Res. 2006 Sep;4(3):230-5. doi: 10.3121/

cmr.4.3.230. PMID: 17048358; PMCID: PMC1570491.

 

Jie Z, Zhiying Z, Li L. A meta-analysis of Watson for Oncology in clinical application. Sci Rep. 2021 Mar 11;11(1):5792.doi:10.1038/s41598-021-84973-5. PMID: 33707577; PMCID: PMC7952578.

 

Goodman RS, Patrinely JR Jr, Osterman T, Wheless L, Johnson DB. On the cusp: Considering the impact of artificial intelligence language models in healthcare. Med. 2023 Mar 10;4(3):139-140. doi: 10.1016/j.medj.2023.02.008. PMID: 36905924.

Assine nossa newsletter

Endereço
Avenida Paulista, 2073, Edifício Horsa II – Conjunto Nacional Conj. 1003, São Paulo/SP, 01311-300

Telefone
+55 (11) 3192-9284

2026 © Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC)