Estimulo à pesquisa
Apesar de barreiras, pesquisadores brasileiros têm se destacado internacionalmente

Autores de artigos recém-publicados em periódicos globais comentam o processo de escrita científica e falam sobre a produção de conhecimento no Brasil

Oferecer o melhor tratamento disponível para seus pacientes é um dos principais desafios com o qual os oncologistas brasileiros têm de lidar. Não apenas na assistência, porém, estão os obstáculos desses profissionais. Para aqueles que optam por desenvolver um percurso de produção científica, há diversos outros obstáculos a serem superados.

Na publicação de artigos em grandes periódicos internacionais, por exemplo, a participação de autores brasileiros ainda é tímida, avalia Dra. Rachel Riechelmann – membro do Comitê de Tumores Gastrointestinais da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC). Ela entende que o foco de atuação, no país, ainda é a assistência, em detrimento do ensino e pesquisa.

Dra. Rachel Riechelmann, autora de artigo publicado na Nature Reviews Disease Primers.

“Geralmente, o tempo dedicado a essas atividades não é remunerado. Isso faz com que os investigadores brasileiros desenvolvam menos pesquisa em comparação a outros países”, comenta “Por isso, a participação nas maiores revistas científicas, sobretudo liderando, é muito pequena”, comenta a oncologista clínica, que é uma das autoras do artigo Gastric neuroendocrine neoplasms, publicado em maio último na Nature Reviews Disease Primers.

Se ainda há um caminho a ser percorrido, há também motivos para otimismo. Dr. Jessé Lopes da Silva, membro do Comitê de Diversidade da SBOC, acredita que o número de brasileiros tem aumentado aos poucos nas revistas de renome internacional.

“Isso reflete o amadurecimento e a excelência da produção científica nacional. O fortalecimento dessa presença é fundamental para ampliar a visibilidade e o impacto da nossa pesquisa, contribuindo para a projeção global da nossa produção”, defende. Em fevereiro de 2024, ele foi o autor principal do estudo Ethnic disparities in breast cancer patterns in Brazil: examining findings from population-based registries, publicado na Breast Cancer Research and Treatment.

Dr. Jessé Lopes da Silva, autor de artigo publicado na Breast Cancer Research and Treatment.

Caminhos da pesquisa

Desde a formação médica, é possível que os jovens se preparem para entender o cenário da pesquisa brasileira e compreender os mecanismos pelos quais pesquisas podem ser feitas no país. Para Dr. Silva, é imprescindível que os jovens cultivem uma postura investigativa, pautada pela curiosidade intelectual e pela busca incessante por conhecimento.

Ele elenca, ainda, como pilares essenciais da trajetória de quem pretende realizar grandes publicações: ter uma mentoria qualificada, participar ativamente de projetos de pesquisa e se atualizar cientificamente de maneira constante.

Ter acesso a treinamentos pode ser o primeiro passo. “O jovem precisa aprender a fazer, conhecer metodologia científi ca e desenho de estudo”, explica Dra. Riechelmann. Isso pode ser feito, por exemplo, por meio de um fellowship – programas oferecidos, geralmente, fora do Brasil.

“Há muitos serviços no país, porém, nos quais é possível se envolver com pesquisa”, comenta a oncologista e pesquisadora, que fez seu treinamento em pesquisa clínica no Princess Margaret Cancer Centre, afi liado à Universidade de Toronto (Canadá).

Geralmente, o tempo dedicado a essas atividades [produção científica] não é remunerado. Isso faz com que os investigadores brasileiros desenvolvam menos pesquisa em comparação a outros países

Impactos reais

A pesquisa, muitas vezes, pode parecer algo distante da rotina assistencial, mas é por meio dela que são produzidas evidências que norteiam as decisões tomadas nos consultórios. Há, ainda, pesquisadores que dedicam sua atividade a estudos que são diretamente ligados à relevância social de seus temas. É o caso do Dr. Jésse Silva, por exemplo.

A imersão no estudo que liderou sobre disparidades étnicas foi motivada pela necessidade premente de compreender o problema no contexto do câncer de mama. “Expor esses dados pode ser uma ferramenta poderosa para fomentar discussões profundas a fi m de criar políticas sérias para reduzir as inequidades raciais”, detalha.

Dra. Riechelmann reforça a importância da pesquisa na assistência. “É por meio destas investigações que os médicos se especializam e produzem conhecimento, contribuindo para o avanço dos cuidados prestados à população”, enfatiza

O fortalecimento da produção científica brasileira é fundamental para ampliar a visibilidade e o impacto da nossa pesquisa

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