Perfil
Dr. Sergio Simon: A vida após o jaleco

Pioneiro da oncologia no Brasil, ex-Presidente da SBOC (Gestão 2017-2019) e vencedor do Prêmio Ronaldo Ribeiro de Carreira em Oncologia Clínica em 2024, Dr. Sérgio Simon aposentou-se recentemente da prática clínica. Longe dos consultórios, ele revela paixões surpreendentes que vão do piano clássico à pesquisa histórica sobre a sua ascendência familiar, passando por uma amizade duradoura com o “Rei” Roberto Carlos

Em setembro de 2024, após quase 50 anos dedicados a cuidar da vida de outros indivíduos, o oncologista Dr. Sérgio Simon fechou a porta de seu consultório pela última vez. Para um homem que, nos anos 1980, chegou a ter 40 pacientes internados em um único fim de semana, o silêncio repentino poderia soar ensurdecedor. Mas a reação foi oposta.

“Já no primeiro dia que eu não tinha mais consultório, me senti aliviado e mais despreocupado. A prática da oncologia põe um peso muito grande nos ombros do médico. Traz alegrias, mas também envolve fantasias de morte e sofrimento diários. Depois de 50 anos, eu não queria mais carregar esse peso”, confessa.

A decisão madura e serena marca um novo capítulo na trajetória de um dos maiores nomes da oncologia mundial. Ex-Presidente da SBOC e fundador do Grupo Brasileiro de Estudos Clínicos em Câncer de Mama (GBECAM), Dr. Simon foi laureado com o Prêmio Ronaldo Ribeiro de Carreira em Oncologia Clínica em 2024, durante o Congresso SBOC. Uma honraria que coroa uma jornada extensa.

Dr. Sergio Simon durante a juventude

A medicina parecia uma certeza desde os três anos de idade, quando pediu uma maletinha de médico de presente para seus pais. Apesar de ter um tio médico que vivia em Belém (PA) – ele nunca chegou a conhecê-lo –, a escolha parece ter surgido mais como vocação. Aos 17 anos, ingressou na faculdade de Medicina e, alguns anos depois, pensava em se especializar como hematologista.

Foi durante sua residência no Mount Sinai Medical Center, na Florida (EUA), que um preceptor o convidou para ver o ambulatório de uma especialidade nova: a cancerologia de tumores sólidos.

Fascinado pelos primeiros resultados curativos com novos quimioterápicos, migrou para o Memorial Sloan Kettering Cancer Center, em Nova Iorque. Lá, vivenciou revoluções, como a introdução da cisplatina e do tamoxifeno. Mas foi também nos EUA que aprendeu uma lição de sobrevivência emocional. Sob a tutela da Dra. Jimmie Holland, pioneira da psico-oncologia, os fellows eram obrigados a fazer sessões semanais de psicodrama. “Aquilo me ensinou a lidar com o paciente, com a família e comigo mesmo. Foi uma formação fundamental para aguentar o impacto de fazer oncologia”, relembra.

Ao retornar ao Brasil nos anos 80, Dr. Simon trouxe não apenas protocolos de ponta, mas uma visão humanista e questionadora. Defendeu ao longo de toda a carreira a democratização do acesso a tratamentos de alto custo no SUS e foi um dos idealizadores da Escola Brasileira de Oncologia (EBO) na SBOC, quando – durante sua liderança nesta Sociedade – buscou ampliar a educação médica continuada para profissionais de todos os cantos do país.

O oncologista clínico em missão internacional

A trilha sonora de uma vida

O que a maioria dos colegas de oncologia não sabe é que as mãos que prescreveram tratamentos também dominam o teclado de um piano. Dr. Sérgio Simon estuda piano clássico desde os sete anos. Mesmo na época de residência nos EUA, quando já não podia se dedicar tanto aos estudos do instrumento, descia ao auditório do hospital no fim do expediente para tocar.

O cantor Roberto Carlos e o especialista estreitaram relações ao longo dos anos

Hoje, ele mantém um piano de cauda em casa, onde desfruta de música clássica, jazz e da música popular brasileira. Foi a medicina, aliás, que lhe rendeu uma de suas amizades mais inusitadas e duradouras: com o cantor Roberto Carlos.

A aproximação ocorreu durante o tratamento de Maria Rita, esposa do cantor, diagnosticada com um tumor neuroendócrino raro. “Ele participou de tudo, não a deixava sozinha no hospital. Interagimos muito. Depois que ela faleceu [em 1999], ele se sentiu muito ligado à minha pessoa”, conta o médico. A amizade se manteve firme. Dr. Simon e sua família são convidados de honra nos shows do Rei, que até hoje liga para o oncologista com frequência para conversar e pedir conselhos médicos.

Entre caravelas e museus

Se a música é um refúgio, a história é uma verdadeira paixão. Longe dos holofotes da medicina, Dr. Simon dedicou 17 anos de sua vida à concepção e à fundação do Museu Judaico de São Paulo, inaugurado em 2021, do qual esteve à frente por mais de duas décadas, se afastando da presidência recentemente.

O interesse tem raízes profundas. A história de sua própria família parece saída de grandes episódios literários. Em 1850, seus tataravôs, judeus marroquinos, imigraram para o Brasil e foram se instalar na Ilha do Marajó, no Pará, onde abriram uma fazenda em meio à imensidão amazônica no município de Muaná.

A pesquisa sobre essa aventura épica virou uma das principais atividades do oncologista. “Estou escrevendo o livro da história da minha família. É muito excêntrico pensar em alguém no meio do século XIX indo para a Ilha do Marajó abrir uma fazenda sem o ar-condicionado que hoje é obrigatório”, brinca.

O legado e a qualidade de vida

Hoje, a rotina do Dr. Sérgio Simon é pautada pelos que estão ao seu redor. Embora ainda acompanhe conferências oncológicas como o Encontro Anual da ASCO e o San Antonio Breast Cancer Symposium virtualmente, seu tempo é dedicado às viagens com a esposa, à atividade física, aos hobbies e aos oito netos.

Curiosamente, nenhum de seus filhos seguiu a carreira médica. “Eles dizem que a convivência comigo os vacinou contra a ideia. Minha qualidade de vida não foi boa. Na minha época, o normal era trabalhar incessantemente”, lembra. “Os jovens hoje prezam por outras atividades, e talvez eles estejam certos”, reflete, com a sabedoria de quem abriu caminhos para que as próximas gerações caminhassem com mais leveza.

E é com essa mesma leveza que o médico que passou a vida lutando pelo tempo dos outros, agora, finalmente, saboreia o seu próprio. Guiado pela arte, pela história da família e por uma certeza que ecoa uma frase de Barack Obama que ele tanto admira: “A esperança é aquilo dentro de nós que insiste, apesar de todas as evidências em contrário, que algo melhor nos aguarda se tivermos a coragem de buscar, de trabalhar e de lutar por isso”.

Assista conversa com Dr. Sergio Simon para o Dia do Oncologista

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