
Imagino como deva ser o dia a dia dos colegas que dividem sua atuação entre os sistemas público e privado de atenção oncológica na atualidade. O Sistema Único de Saúde representa um avanço bastante significativo para a organização da atenção à saúde do brasileiro. Porém, em condições limites – mais frequentemente vividas pelos pacientes com câncer – a realidade da não incorporação de opções terapêuticas no sistema público gera assimetrias de acesso quando se comparam pacientes com aparentemente as mesmas condições clínicas assistidos pelo sistema privado.
Essas aparentes discrepâncias tendem a aumentar à medida que a pesquisa avança e permite consolidar a oncologia de precisão. O desenvolvimento e a incorporação de diagnósticos moleculares capazes de orientar a indicação terapêutica podem gerar benefícios concretos para os pacientes. Mas há muito o que avançar.
Exerço minhas atividades como pesquisador e professor universitário num laboratório, onde tratamos células e animais que nos servem de modelos para compreender a resposta a diferentes tratamentos. São só modelos; e, como diria George Box, todos os modelos estão errados; mas alguns podem ser úteis. Através desses modelos temos aprendido que a presença de marcadores-alvo é necessária para a resposta a tratamentos dirigidos, mas não são necessariamente suficientes. E, ainda, mecanismos de tolerância e resistência à pressão seletiva representada pelo tratamento podem emergir na vigência do tratamento. Tenho certeza de que muitos de vocês têm vivência parecida com o tratamento de seus pacientes. Estudamos ou tratamos doenças que estão em contínua evolução, um alvo móvel. Assim, como podemos ser precisos?
Entendo que temos de mudar nossa pergunta para que os pacientes se beneficiem otimamente da oncologia de precisão. Precisamos aprender quando a precisão será de fato mais eficaz. Talvez a principal questão da oncologia de precisão não seja apenas identificar quem possui um determinado marcador, mas compreender em que momento da evolução tumoral a intervenção dirigida terá maior probabilidade de alterar a história natural da doença ou a resposta à terapia. Intuitivamente, penso que quanto mais cedo e menos heterogênea for a população de células tumorais, mais eficiente será o tratamento de precisão.
Mas como podemos determinar quando? Biópsias líquidas permitirão a detecção de células tumorais ou seus vestígios em fluidos biológicos, como sangue, saliva e urina a partir da pesquisa de marcadores que nos permitam o rastreamento dinâmico da doença residual. Além dos biomarcadores convencionais, diferentes medidas de tempo biológico, referidas como relógios moleculares, vêm sendo desenvolvidas para estimar a dinâmica evolutiva dos tumores. Enquanto não temos respostas claras para perguntas como essa, por exemplo, precisamos agir. Para tanto, a colaboração de nossos colegas que assistem pacientes no âmbito privado tem um papel fundamental, e que poderá trazer os subsídios para a efetiva incorporação das abordagens de precisão no sistema público.
Registros de coortes de pacientes em tratamento com abordagens de oncologia de precisão representam um recurso essencial para políticas de saúde pública: dados de mundo real, integrados às informações clínicas e laboratoriais rotineiramente coletadas, poderão revelar em quais contextos as abordagens de precisão são mais ou menos eficazes. O arcabouço teórico para a criação de modelos preditivos está cada vez mais robusto, dependendo primariamente da qualidade dos dados coletados a partir da prática diária da maioria de nossos colegas.
Por sua vez, o teste desses modelos pode nos indicar direções e sugerir estudos que trarão subsídios para a tomada de decisão informada sobre a implementação de novos tratamentos, no contexto individual e, principalmente, no contexto coletivo. Estudos sistemáticos de dados de mundo real são úteis também para identificação das variáveis determinantes de resposta terapêutica, por exemplo, permitindo a otimização de algoritmos de tratamento e seguimento dos pacientes. Se conseguirmos transformar a experiência acumulada na prática clínica em conhecimento estruturado, criaremos as bases para uma oncologia de precisão mais equitativa, na qual o local de atendimento deixe de ser um determinante de acesso à melhor decisão terapêutica, e assim aqueles assistidos pelo sistema público também se beneficiarão do tratamento mais preciso, no momento necessário.

Roger Chammas é professor titular de Oncologia no Centro de Investigação Translacional em Oncologia do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP) – Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP).
