Título em inglês:
Romiplostim versus Placebo for Chemotherapy-Induced Thrombocytopenia
Título em português:
Romiplostim versus placebo para trombocitopenia induzida por quimioterapia
Al-Samkari H, Muñoz C, Geredeli Ç, Korantzis I, González Astorga B, Arslan C, et al. Romiplostim versus Placebo for Chemotherapy-Induced Thrombocytopenia. N Engl J Med. 2026 Mar 12;394(11):1061-1073. doi: 10.1056/NEJMoa2511882.
Resumo do artigo:
O estudo RECITE, publicado recentemente no New England Journal of Medicine, avaliou o papel de romiplostim no manejo da trombocitopenia induzida por quimioterapia (CIT) em esquemas contendo oxaliplatina para neoplasias gastrointestinais. A CIT é uma toxicidade hematológica frequente, levando a reduções de dose ou a atrasos no tratamento, o que pode comprometer a dose-intensidade e a eficácia. Assim, o objetivo do estudo foi investigar se o uso de romiplostim poderia reduzir a necessidade de modificações de dose por causa de trombocitopenia.
Trata-se de um ensaio clínico fase III, randomizado, duplo-cego, controlado por placebo e multicêntrico. Foram incluídos 165 pacientes que apresentavam trombocitopenia persistente durante tratamento com quimioterapia contendo oxaliplatina, definida como contagem plaquetária menor ou igual a 85.000/mm³. Os participantes foram randomizados em proporção 2:1 para receber romiplostim ou placebo por três ciclos consecutivos de quimioterapia. O desfecho primário do estudo foi a ausência de modificação da dose da quimioterapia devido a trombocitopenia nos ciclos 2 e 3 de tratamento. Nesse caso a modificação de dose incluía reduções, atrasos, omissão, ou descontinuação e a avaliação era feita de forma central e independente (três oncologistas clínicos).
Em relação às características da população estudada, aproximadamente 75% dos pacientes apresentavam neoplasia colorretal, enquanto os demais tinham tumores gastroesofágicos (13%) ou pancreáticos (12%). A maioria dos participantes apresentava doença avançada: no grupo que recebeu romiplostim, 72% estavam em estádio IV, enquanto no grupo placebo essa proporção foi de 61%.
Os resultados demonstraram benefício significativo associado ao uso de romiplostim. No grupo tratado com a medicação, 84% dos pacientes conseguiram manter a quimioterapia sem necessidade de redução ou atraso de dose relacionados à CIT, em comparação com 36% no grupo placebo. A análise estatística demonstrou razão de risco de 2,77 (IC 95% 1,78-4,30; P<0,001) e odds ratio de 10,16 (IC 95% 4,44-23,72; P<0,001), indicando que os pacientes tratados com romiplostim apresentaram probabilidade significativamente maior de manter a intensidade de dose planejada da quimioterapia.
Em relação ao perfil de segurança, eventos adversos grau 3 ou maior ocorreram em 37% dos pacientes no grupo romiplostim e em 22% no grupo placebo, sendo a maioria atribuída à quimioterapia de base. Eventos adversos relacionados ao medicamento do estudo foram observados em 12% dos pacientes no grupo intervenção e em 7% no grupo placebo. Os efeitos mais frequentemente relatados foram náusea (2% em cada grupo) e cefaleia (2% no grupo romiplostim). Não foram observados eventos adversos graves relacionados ao tratamento que resultassem em morte ou descontinuação do estudo. Eventos tromboembólicos foram registrados em 2% dos pacientes tratados com romiplostim, enquanto nenhum caso foi observado no grupo placebo.
Os autores concluem que o romiplostim demonstrou eficácia no manejo da trombocitopenia induzida por quimioterapia em pacientes tratados com esquemas à base de oxaliplatina, permitindo maior manutenção da intensidade de dose da quimioterapia, com perfil de segurança considerado aceitável.
Comentário da avaliadora científica:
A trombocitopenia induzida por quimioterapia (CIT) é uma toxicidade hematológica relevante em pacientes com neoplasias gastrointestinais tratados com esquemas contendo oxaliplatina, com incidência descrita na literatura variando aproximadamente entre 11% e 46% (Li et al., J Gastrointest Cancer, 2024; Weycker et al., BMC Cancer, 2019).
Nesse contexto, o estudo testa o romiplostim, um agonista do receptor de trombopoietina, como uma estratégia para manter a dose planejada da quimioterapia. Um ponto metodológico relevante é a escolha do desfecho primário, que priorizou a manutenção da intensidade de dose do tratamento, um desfecho de maior impacto clínico do que a simples elevação da contagem plaquetária.
Entretanto, algumas limitações devem ser consideradas. O período de seguimento foi relativamente curto, o que limita a compreensão da durabilidade do efeito do romiplostim em tratamentos prolongados. Além disso, o RECITE se restringiu a esquemas de quimioterapia contendo oxaliplatina, não tendo sido contemplados outros quimioterápicos frequentemente associados com trombocitopenia. Por fim, o estudo não avalia se a manutenção de dose é, de fato, associada com melhores desfechos de eficácia. De qualquer modo, os resultados sugerem que o romiplostim pode representar uma estratégia promissora para otimizar a dose-intensidade em esquemas contendo oxaliplatina.
Avaliadora científica:
Dra. Virginia dos Santos Silva Neta
Oncologista clínica pelo Hospital São Rafael – Rede D’Or – Salvador/BA
Oncologista no Hospital Ana Nery
Fellowship em Pesquisa Clínica pelo Instituto Oncoclínicas
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Cidade de atuação: Santa Cruz do Sul/RS
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