Reflexão do oncologista
Reflexões sobre o primeiro quarto de século na oncologia

Inicialmente, fiquei surpreso ao receber o convite para escrever sobre as mudanças na prática oncológica ao longo das últimas décadas. A oncologia realmente avançou muito, tornando-se uma das especialidades mais dinâmicas e fascinantes da Medicina — mas quem sou eu para ousar fazer esse comparativo?

Ao refletir melhor sobre a proposta, percebi que o pedido fazia sentido. Afinal, já atuo na oncologia há mais de 30 anos! Formei-me em Medicina em 1991 e, após a residência em Clínica Médica na Universidade de Miami, iniciei meu treinamento específico em hemato-oncologia no M.D. Anderson, em Houston, no já distante ano de 1995.

A realidade do final do século passado era muito diferente da que vemos hoje. Fazíamos o melhor que podíamos com os recursos disponíveis. Os tratamentos cirúrgicos e a radioterapia já haviam evoluído bastante, mas ainda predominavam grandes procedimentos e campos de tratamento extensos. As técnicas minimamente invasivas estavam apenas começando, como uma promessa em fase exploratória, bem distante das práticas atuais.

Tumores localizados já tinham boas taxas de cura; entretanto, em casos avançados, restavam apenas opções hormonais ou quimioterápicas convencionais. Fluorouracil, antraciclinas, drogas alquilantes e platinas eram praticamente tudo o que tínhamos.

A grande novidade eram os “recentes” taxanos, e aceitávamos que o empirismo era parte inevitável do desenvolvimento de novas drogas. Uma piada recorrente entre oncologistas da época era escolher quais medicamentos antineoplásicos cada um levaria caso fosse isolado da civilização — e eram tão poucas opções que o exercício era de fato possível!

No campo do conhecimento, estávamos apenas começando a expandir os novos conceitos de biologia molecular para compreender a carcinogênese. Já sabíamos que certos tumores estavam associados a alterações genéticas ou cromossômicas específicas — como a translocação BCR-ABL nas leucemias — e começávamos a entender que alterações em receptores de superfície, como o HER-2, caracterizavam subgrupos de câncer. Utilizávamos esses fatores principalmente para diagnóstico e, em alguns casos, como marcadores prognósticos, mas ainda não havia clareza de que eram determinantes para o surgimento dos tumores, muito menos certeza de que poderiam servir como alvos terapêuticos. Tratamentos alvo-moleculares eram, até então, apenas um sonho.

O início do século XXI mudou tudo isso. O conhecimento acumulado culminou no desenvolvimento dos inibidores de tirosina-quinase e dos anticorpos monoclonais, transformando o paradigma do tratamento oncológico. Já não se tratava de empirismo, mas de lógica: partir do alvo para desenvolver novas drogas antineoplásicas.

Doenças até então pouco compreendidas e altamente letais passaram a ter opções efetivas de tratamento. O aumento das taxas de resposta resultou em uma dramática extensão da expectativa de vida dos pacientes — multiplicada várias vezes em relação ao que se podia esperar décadas atrás.

Nos anos 1990, depositávamos grande esperança na imunoterapia. Trabalhos pioneiros com interferon e interleucina-2 mostravam que o sistema imune poderia ser um aliado contra o câncer, mas os resultados eram modestos e a toxicidade, significativa. A compreensão mais profunda dos mecanismos de resposta imune contra tumores, aliada ao desenvolvimento das terapias anti-CTLA-4 e anti-PD-1/PD-L1, inaugurou um novo paradigma ainda em expansão.

Pacientes com melanoma e outros tumores imunogênicos passaram a ter uma chance real de cura que simplesmente não existia antes. O grande desafio atual é a compreensão dos mecanismos de resistência e o desenvolvimento de novas terapias que permitam a ampliação da população que pode ser beneficiada.

As últimas duas décadas transformaram o panorama da oncologia. Lembrar de onde viemos é fundamental para valorizarmos as conquistas. Ainda temos muito a avançar — o câncer continua sendo uma das principais causas de morte —, mas há luz no fim do túnel.

Embora a incidência global continue crescendo, com estimativas que apontam para mais de 30 milhões de novos casos anuais em breve, hoje já podemos prevenir muitos e curar outros. Desde 1990, a mortalidade por câncer vem caindo de forma consistente, em torno de 2% ao ano nos Estados Unidos — e nada impede que essa tendência seja replicada em outros países.

Toda essa evolução traz mudanças significativas na prática clínica, e com isso novas exigências em relação ao treinamento dos nossos futuros oncologistas. O câncer é um conjunto de doenças caracterizadas por alterações genômicas, herdadas ou adquiridas, e a divisão entre biologia molecular e oncologia é cada vez mais tênue. Um conhecimento profundo dessa área tornou-se um pré-requisito essencial para os novos profissionais, afetando desde a escolha de testes específicos até a estruturação de planos de tratamento.

Um aspecto relativamente novo é a fartura de novos tratamentos, particularmente alvo-dirigidos, e a necessidade de escolher qual a melhor opção para cada paciente. Embora positiva, a disponibilidade de múltiplos tratamentos traz desafios. O conhecimento de bioestatística, a compreensão sobre desenho de estudos clínicos e farmacoeconomia, e a capacidade de análise crítica da literatura sempre foram importantes, mas agora são essenciais para a escolha do que oferecer ou não em cada caso.

A oncologia realmente avançou muito, tornando-se uma das especialidades mais dinâmicas e fascinantes da medicina

Mais do que nunca, a oncologia está sendo individualizada, e as decisões terapêuticas são cada vez mais complexas. Finalmente, a tecnologia não pode ser um fator que afaste o profissional do paciente, e nossos oncologistas precisam receber um treinamento que ressalte a relação humanizada, lembrando que nosso trabalho não se limita à escolha e prescrição de tratamentos, e que o cuidado se estende por toda a vida dos nossos pacientes — incluindo os cuidados paliativos, quando indicados.

A incorporação tecnológica é essencial, sobretudo em prevenção e diagnóstico precoce. A maior disponibilidade de biópsias líquidas eficientes provavelmente marcará a próxima mudança de paradigma, associada a testes diagnósticos mais precisos e tratamentos menos tóxicos. Mas precisamos também reduzir a incidência: evitar o tabaco e o consumo excessivo de álcool, praticar atividade física regular, manter uma alimentação rica em frutas e verduras (e pobre em ultraprocessados), ter sexo seguro, utilizar vacinas e controlar a exposição solar são estratégias simples e inteligentes de redução de risco.

É gratificante ver o quanto nossa especialidade avançou. E mantenho a mesma curiosidade e esperança de sempre para acompanhar como continuaremos a evoluir.

Prof. Dr. Paulo M. Hoff

Oncologista Clínico, ex-presidente da SBOC
(Gestão 2021-2022) e vencedor do Prêmio Ronaldo Ribeiro de
Carreira em Oncologia Clínica, em 2015.

Prof. Titular da Disciplina de Oncologia Clínica da Faculdade de Medicina da USP, membro da Academia Nacional de Medicina, vice-presidente do Conselho Diretor e diretor-geral do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP), e presidente do Grupo Oncologia D’Or.

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