
Equidade, liderança, comunicação e narrativas humanas marcaram a programação desta sexta-feira (6) no Congresso SBOC 2026. Em diferentes sessões, especialistas discutiram temas que ultrapassam os aspectos biológicos do câncer e reforçam a importância de uma oncologia mais inclusiva, humana e conectada às experiências de pacientes e profissionais.
As sessões de diversidade abordaram temas como ancestralidade, oncologia de precisão, inequidades raciais e barreiras de acesso enfrentadas por populações historicamente subrepresentadas, incluindo pessoas LGBTQIA+, comunidades indígenas e populações ribeirinhas.
O debate foi ampliado na sessão de Liderança Feminina, que reuniu especialistas para discutir os desafios ainda enfrentados pelas mulheres em posições de poder. A escritora feminista e membro da Academia Brasileira de Letras, Rosiska Darcy de Oliveira ressaltou a importância de reconhecer o próprio valor e não aceitar o desrespeito como algo natural. “Nada nos enfraquece mais do que o desrespeito”, afirmou.
A mastologista Dra. Fabiana Baroni Makdissi defendeu que a desigualdade de gênero é um problema estrutural e que a construção de lideranças femininas depende de critérios transparentes, mentoria e apoio institucional. “Ter voz não basta. Essa voz precisa de preparo”, destacou.
Já a ex-presidente da SBOC, Dra. Anelisa Coutinho apresentou dados que evidenciam a persistência da desigualdade em cargos de liderança apesar do crescimento da participação feminina na medicina. “O talento não tem gênero. A competência não tem gênero. E as oportunidades de liderar também não deveriam ter”, afirmou.
O presidente eleito da SBOC, Dr. Fábio Franke, reforçou que a transformação das instituições também exige participação ativa dos homens. “Transformar as lideranças não é uma tarefa delegada às mulheres. Quem detém poder e privilégio é quem tem mais alavanca para mudar o sistema”, disse.
Histórias que transformam: os SBOC Talks
Uma das novidades do Congresso SBOC 2026 foi o SBOC Talks, inspirado no formato TED. Após participarem de oficinas de comunicação, oncologistas associados foram convidados a compartilhar histórias pessoais e profissionais que marcaram suas trajetórias.
Ao apresentar a iniciativa, a Presidente da Comissão Científica do SBOC 2026, Dra. Daniele Assad, destacou a importância da comunicação na prática médica. “Uma apresentação é capaz de transformar tanto a pessoa que fala quanto a pessoa que escuta”, afirmou.
Entre os participantes, Dr. Nivaldo Vieira refletiu sobre identidade e presença. “Sabemos guidelines, dados e informações. Mas será que estamos presentes na vida dos pacientes? O que nos diferencia de fato é a nossa presença.”
Dr. Pedro Henrique Araújo de Souza compartilhou uma história vivida no Hospital de Amor e destacou que empatia e compaixão continuam sendo os pilares do cuidado, mesmo em tempos de inteligência artificial.
Dra. Rachel Cossetti relatou como o contato com pacientes jovens acometidas por câncer de colo do útero motivou seu engajamento em ações de prevenção. “Eu tratava mulheres e via mulheres morrerem por uma doença que pode ser amplamente prevenida.”
Em uma das falas mais emocionantes da sessão, Dra. Cecília Lameirinhas Longo contou a história de um paciente italiano com câncer avançado que conseguiu realizar os últimos grandes desejos da vida, como casar e voltar à Itália, graças ao esforço coletivo de sua equipe de cuidados.
Já Dra. Priscila Bernardina Miranda Soares relembrou histórias de pacientes que inspiraram a criação da Fundação Presente e reforçou a importância de combater desigualdades. “Não queremos apenas acesso ao tratamento. Queremos que o tratamento chegue a tempo.”
Encerrando a atividade, o ex-presidente da SBOC, Dr. Gustavo Fernandes destacou que a comunicação começa pela capacidade de ouvir. “A arte da fala começa pela escuta.”
Quando a medicina encontra a literatura
Em sintonia com o tema do congresso, a sessão Literatura Médica discutiu como a escrita, a arte e as narrativas podem contribuir para uma prática mais humana.
Abrindo os debates, Dra. Kelly Cunegundes apresentou os fundamentos da medicina narrativa, conceito desenvolvido por Rita Charon para fortalecer a capacidade dos profissionais de compreender as histórias dos pacientes. Citando a autora, lembrou que a competência narrativa consiste em “reconhecer, absorver, interpretar e agir a partir das histórias das pessoas”.
O cirurgião, escritor e roteirista Dr. Marcio Maranhão refletiu sobre a fronteira entre realidade e ficção e destacou o poder das histórias na construção de significado. Citando Eduardo Galeano, resumiu: “Os cientistas dizem que somos feitos de átomos. Os poetas dizem que somos feitos de histórias.”
A oncologista Dra. Ana Coradazzi defendeu que a arte ajuda médicos e pacientes a conviver melhor com a incerteza. “Os dados nos confortam, mas a arte nos ensina a conviver com aquilo que não conseguimos controlar.”
Representando a perspectiva dos cuidadores, Julia Jalbut, autora de “Uma Casa que Não Pode Cair”, compartilhou sua experiência ao acompanhar o adoecimento dos pais e falou sobre o papel acolhedor da literatura. “A escrita ajudou a organizar e nomear muitas coisas que eu sentia sem saber exatamente como chamar.”
Cooperação internacional e os desafios da oncologia global
A sessão Global Oncology in Action: How Scientific Societies Shape Cancer Care, realizada em parceria com a ASCO, ESMO, ALAS e a Associação Chinesa Anticâncer (CACA), discutiu o papel das sociedades científicas na construção de diretrizes, educação médica, prevenção e implementação de boas práticas em oncologia.
As apresentações destacaram como a colaboração internacional pode acelerar a disseminação do conhecimento e contribuir para reduzir desigualdades no cuidado ao câncer em diferentes regiões do mundo.
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