Publicada em maio na prestigiada revista científica The New England Journal of Medicine, uma pesquisa realizada nos Estados Unidos com 516 mulheres de até 43 anos que estavam em tratamento pós-câncer de mama indicou que, ao suspenderem o uso de medicamentos contra a recidiva da doença, 75% delas conseguiram engravidar. O estudo científico traz esperança para mulheres do mundo inteiro que já tiveram a doença e desejam tentar a gestação.
Intitulado de P.O.S.I.T.I.V.E (sigla para Pregnancy Outcome and Safety of Interrupting Therapy for Women with Endocrine Responsive Breast Cancer), que, na tradução literal, significa algo como “Desfechos de gravidez e segurança de interromper a terapia endócrina em pacientes com câncer de mama sensível aos hormônios”, o estudo científico teve como objetivo avaliar se era seguro interromper o tratamento anti-hormonal de pacientes até 43 anos que tiveram câncer de mama.
De acordo com o oncologista clínico Dr. Gilberto Amorim, membro da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), os medicamentos do chamado tratamento adjuvante são comumente utilizados durante um período que pode durar de cinco a dez anos, para evitar o surgimento de novos tumores. No entanto, esse tempo pode deixar as mulheres que desejam engravidar desconfortáveis.
“Nunca foi fácil para nós interrompermos o tratamento dessas mulheres durante um ano, por exemplo, para que elas tentassem engravidar espontaneamente ou com auxílio da ciência. Afinal, entendíamos que a pausa precoce no tratamento endócrino podia comprometer o desfecho das pacientes”, conta “Quando a gente liberava as pacientes antes desses resultados, às vezes, era depois de cinco anos de terapia, e isso para elas era muito complicado”, detalha Dr. Amorim.
Por isso, segundo o especialista da SBOC, os resultados desse estudo científico permitem que os oncologistas possam dialogar com as pacientes uma possível interrupção com até 2,5 anos de terapia endócrina. “O estudo avaliou mulheres com a idade média de 37 anos. Aqui estamos falando de pacientes jovens. Algumas delas fizeram quimioterapia e esse tratamento não raro afeta a fertilidade. O resultado obtido é importante porque podemos abordar o tema com mulheres que receberam o diagnóstico do câncer de mama e que tenham interesse em engravidar”.
Realidade brasileira – Dados divulgados em 2019 por uma pesquisa realizada pelo Grupo Latino-Americano de Oncologia Cooperativa (Lacog, da sigla em inglês) indicam que, no Brasil, 43% das mulheres que receberam o diagnóstico positivo para o câncer de mama, entre 2016 e 2018, tinham menos de 50 anos. Além disso, das que tinham idade inferior a 40 anos, quase 40% estavam no estágio mais avançado da doença.
Para Dr. Amorim, ainda que os Estados Unidos – onde a pesquisa sobre a interrupção do tratamento pós-câncer de mama para a tentativa de gravidez foi realizada – e o Brasil tenham realidades distintas nos sistemas de saúde, sejam eles o público ou o privado, os resultados do estudo científico devem ser considerados por especialistas. Em especial, no diálogo com as pacientes que desejam engravidar.
Esses resultados podem ser aceitos e adaptados pela comunidade oncológica brasileira.
Endereço
Avenida Paulista, 2073, Edifício Horsa II – Conjunto Nacional Conj. 1003, São Paulo/SP, 01311-300
Telefone
+55 (11) 3192-9284