Título em inglês:
Overall survival with relacorilant and nab-paclitaxel in patients with platinum-resistant ovarian cancer (ROSELLA): a phase 3 randomised controlled trial
Citação:
Lorusso D, Gladieff L, O’Malley DM, Kim JW, Garbaos G, Fagotti A, et al. Overall survival with relacorilant and nab-paclitaxel in patients with platinum-resistant ovarian cancer (ROSELLA): a phase 3 randomised controlled trial. Lancet. 2026 Apr 18;407(10538):1513-1524. doi: 10.1016/S0140-6736(26)00462-9
Resumo do artigo:
O câncer de ovário resistente à platina tem prognóstico desfavorável, com sobrevida global (SG) mediana entre 10 e 17 meses em estudos clínicos prévios. As opções terapêuticas são limitadas, geralmente baseadas em quimioterapia isolada associada ou não ao bevacizumabe, ou em terapias-alvo guiadas por biomarcadores.
O racional biológico do estudo ROSELLA se baseia no papel do receptor de glicocorticoide, cujo estímulo por cortisol promove a sobrevivência tumoral. O relacorilant é um antagonista seletivo desse receptor e pode aumentar a sensibilidade das células tumorais à quimioterapia.
O ROSELLA é um ensaio clínico de fase 3, randomizado, multicêntrico e aberto, que avaliou a eficácia e segurança do relacorilant associado ao nab-paclitaxel em pacientes com câncer de ovário resistente à platina. Foram incluídas mulheres com ≥18 anos, com doença epitelial de alto grau (ovário, tuba uterina ou peritônio), previamente tratadas com uma a três linhas de terapia sistêmica e progressão em menos de 6 meses após platina. Todas haviam recebido bevacizumabe, e 61% haviam sido expostas a inibidores de PARP.
Entre janeiro de 2023 e abril de 2024, 381 pacientes foram randomizadas (1:1) para receber relacorilant 150 mg via oral (dias -1, 0 e +1) associado ao nab-paclitaxel (80 mg/m² nos dias 1, 8 e 15 a cada 28 dias), ou então nab-paclitaxel isolado (100 mg/m² nos dias 1, 8 e 15 a cada 28 dias). Os desfechos primários foram sobrevida livre de progressão (SLP), avaliada por revisão central independente cega, e sobrevida global (SG).
Após seguimento mediano de 24,8 meses, a combinação demonstrou ganho significativo de SG, com redução de 35% no risco de morte (HR 0,65; IC 95% 0,51–0,83; p = 0,0004). A mediana de SG foi de 16,0 meses no grupo combinação versus 11,9 meses no grupo controle, correspondendo a um ganho absoluto de 4,1 meses. A taxa de SG em 18 meses foi de 46% com a combinação, comparada a 27% com quimioterapia isolada. As curvas de sobrevida mantiveram separação consistente ao longo do tempo, com benefício observado em todos os subgrupos analisados.
Os resultados de SG corroboram a análise prévia de SLP e foram acompanhados por melhora em SLP2 (sobrevida livre de segunda progressão), sugerindo manutenção do efeito terapêutico. Na avaliação de qualidade de vida, não houve diferença clinicamente relevante entre os braços.
Em relação à segurança, o perfil foi semelhante entre os grupos quando ajustado pela duração do tratamento. Os eventos adversos mais comuns com a combinação foram neutropenia (64%), anemia (61%), fadiga (54%) e náuseas (44%). Eventos de grau ≥3 foram mais frequentes no grupo combinação (75% versus 59%), possivelmente relacionados ao maior tempo de exposição ao tratamento. Não foram identificados novos sinais de toxicidade com o seguimento mais prolongado.
Em conjunto, os resultados indicam que a adição do relacorilant ao nab-paclitaxel proporciona ganho significativo de sobrevida global em pacientes com câncer de ovário resistente à platina, sem a necessidade de seleção por biomarcador, configurando uma estratégia promissora nesse cenário.
Comentário da avaliadora científica:
O estudo ROSELLA se destaca por demonstrar ganho consistente em sobrevida global em câncer de ovário resistente à platina. Este é um cenário bastante desafiador, e o estudo incluiu uma população amplamente pré-tratada, já exposta a bevacizumabe e frequentemente a inibidores de PARP, o que reflete a prática clínica contemporânea. Um diferencial importante é o benefício observado sem a necessidade de seleção por biomarcadores, ampliando sua aplicabilidade prática.
Em contraste, estudos neste mesmo cenário, como MIRASOL (conjugado droga-anticorpo) e KEYNOTE-B96 (imunoterapia associada à quimioterapia), também demonstraram ganho em SG, porém restritos a subgrupos selecionados por biomarcadores (receptor de folato alfa e PD-L1). Assim, a ausência de dependência de biomarcador no ROSELLA representa uma vantagem, especialmente quando há limitação de acesso ou necessidade de início rápido do tratamento. Da mesma forma, o relacorilant pareceu ser bem tolerado, sem a adição significativa de toxicidades à quimioterapia.
Por outro lado, o uso de nab-paclitaxel pode ser desafiador em pacientes previamente expostas a paclitaxel, que frequentemente vivem com neuropatia periférica em graus variáveis. Isso deve ser levado em conta na hora de escolher este tratamento, já que, até o momento, não temos dados que embasem relacorilant em conjunto com outras quimioterapias.
Avaliadora científica:
Dra. Regina Arruda Leal
Oncologista clínica pelo Hospital Erasto Gaertner – Curitiba/PR
Oncologista na Clínica SOMA e no Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Pesquisadora clínica no Grupo ELORA
Instagram: @reginaleal.onco
Cidade de atuação: Florianópolis/SC
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