SBOC Review

BREAKWATER: Análise de sobrevida livre de progressão e sobrevida global com encorafenibe + cetuximabe + FOLFIRI em primeira linha para câncer colorretal metastático com mutação em BRAF V600E

SBOC Review – Edição especial pós-ASCO 2026
Atualizações em Tumores Gastrointestinais Baixos

Abstract LBA3503: BREAKWATER: Progression-free and overall survival analyses of first-line (1L) encorafenib + cetuximab (EC) + FOLFIRI in BRAF V600E-mutant metastatic colorectal cancer (mCRC)

Resultados do estudo BREAKWATER apresentados na ASCO GI 2025 demonstraram o benefício da combinação de encorafenibe com cetuximabe (EC) e FOLFOX em primeira linha para pacientes com câncer colorretal metastático (CCRm) e mutação em BRAF V600E. Uma avaliação inicial de segurança mostrou que a combinação de EC e FOLFIRI foi bem tolerada e teve atividade antitumoral promissora. Desta forma, foi desenhada a coorte 3 do estudo BREAKWATER para avaliar a eficácia de EC + FOLFIRI. Na ASCO GI 2026, foi relatada maior taxa de resposta objetiva (TRO) em comparação ao tratamento padrão (64,4% vs 39,2%; OR 2,76; IC95% 1,42 – 5,35; p=0,001). A análise atual, apresentada oralmente na ASCO 2026, traz os dados de sobrevida livre de progressão (SLP) e sobrevida global (SG) na coorte 3.

Foram randomizados 147 pacientes para receber EC + FOLFIRI ou FOLFIRI com ou sem bevacizumabe. O desfecho primário foi TRO e os desfechos secundários incluíram SLP e SG. Foi observado benefício em SLP com a combinação, com SLP mediana de 15,2 meses no grupo EC + FOLFIRI e de 8,3 meses no grupo controle (HR 0,44; IC95% 0,27 – 0,70; p=0,0002). Também foi observado incremento em SG, cuja mediana não foi atingida no grupo EC + FOLFIRI e foi de 20,3 meses no grupo controle (HR 0,56; IC95% 0,34 – 0,94). Eventos adversos graves ocorreram em 49,3% dos pacientes no grupo EC + FOLFIRI e 44,1% no grupo controle. Houve descontinuação de tratamento por toxicidade em 15,5% dos pacientes no grupo EC + FOLFIRI e 10,3% no grupo controle.

Os dados da coorte 3 do estudo BREAKWATER confirmam o benefício da combinação de EC e quimioterapia baseada em fluoropirimidina, que se tornou o tratamento padrão de primeira linha para pacientes com CCRm e mutação em BRAF V600E. Além disso, o estudo amplia as opções de parceiros de quimioterapia, embasando o uso de FOLFIRI, um esquema frequentemente utilizado na prática clínica e que apresenta perfil de toxicidade distinto em relação a FOLFOX.

Estudo fase III de trastuzumabe rezetecana versus tratamento padrão para câncer colorretal (CCR) avançado, HER2 positivo e refratário a quimioterapia: HORIZON-CRC01

Abstract 3505: Phase 3 trial of trastuzumab rezetecan vs standard of care (SOC) for chemotherapy-refractory, HER2-positive, advanced colorectal cancer (CRC): HORIZON-CRC01

O HORIZON-CRC01 foi um estudo fase III, aberto, conduzido na China, que avaliou o uso de trastuzumabe rezetecana, um novo conjugado droga-anticorpo com alvo em HER2 e contendo um inibidor de topoisomerase I como payload, para o tratamento de pacientes com CCR avançado HER2 positivo. Critérios de inclusão incluíram avaliação central de HER2 com imuno-histoquímica 3+ ou 2+ com hibridização in situ positiva, RAS e RAF selvagem e refratariedade a fluoropirimidinas, oxaliplatina e irinotecano. O desfecho primário foi sobrevida livre de progressão (SLP) avaliada por comitê independente, enquanto sobrevida global (SG) foi um dos desfechos secundários principais.

Foram randomizados 130 pacientes na razão 2:1 para receber trastuzumabe rezetecana ou tratamento padrão, que poderia ser TAS-102, fruquintinibe ou regorafenibe. Após um seguimento mediano de 9,6 meses, houve benefício estatisticamente significativo em SLP com trastuzumabe rezetecana. Foi observada SLP mediana de 5,5 meses no grupo experimental e de 2,8 meses no grupo padrão (HR 0,33; IC95% 0,21 – 0,53; p<0,0001).

A taxa de resposta objetiva foi de 35% no grupo tratado com trastuzumabe rezetecana e 2% no grupo padrão (p<0,0001). Dados de SG são imaturos nesta análise. Eventos adversos grau 3 ou mais ocorreram em 48,8% dos pacientes no grupo trastuzumabe rezetecana e em 50,0% dos pacientes no grupo controle. As toxicidades mais frequentemente associadas ao trastuzumabe rezetecana foram neutropenia, anemia e trombocitopenia. Não foram reportados casos de doença pulmonar intersticial.

O estudo HORIZON-CRC01 apresenta trastuzumabe rezetecana como uma nova potencial opção terapêutica para pacientes com CCR avançado HER2-positivo e refratário a quimioterapia, com ganho de SLP em comparação com tratamentos ativos utilizados em linhas posteriores. Entre as limitações do estudo, destacam-se a inclusão exclusiva de pacientes chineses, o que pode restringir a extrapolação dos resultados para outras populações, e a ausência da combinação de TAS-102 e bevacizumabe no braço controle, considerada uma opção de tratamento relevante nesse cenário.

Sobrevida livre de doença (SLD) e tempo para recorrência (TPR) com decisão de tratamento adjuvante baseada em DNA tumoral circulante (ctDNA) em câncer colorretal estádio II (CIRCULATE): Um estudo AIO (KRK-0217)/ABCSG

Abstract LBA3500: Disease-free survival (DFS) and time to recurrence (TTR) with circulating tumor (ct) DNA–based decision for adjuvant treatment in colon cancer stage II (CIRCULATE): An AIO (KRK-0217)/ABCSG trial

O estudo CIRCULATE foi um estudo prospectivo, randomizado e duplo-cego, conduzido na Alemanha e na Áustria. Pacientes com câncer colorretal (CCR) estádio II, sem instabilidade de microssatélites, foram submetidos a um teste acadêmico de ctDNA, informado pelo tumor e baseado em sequenciamento de nova geração (NGS). Pacientes com ctDNA positivo foram randomizados na razão 2:1 para quimioterapia adjuvante (capecitabina por 6 meses ou CAPOX por 3 a 6 meses) ou observação. Pacientes com ctDNA negativo foram randomizados na razão 1:4 para observação dentro ou fora do estudo. O desfecho primário foi SLD nos pacientes com ctDNA positivo.

Foi calculada uma amostra de 1.540 pacientes, assumindo uma taxa de positividade de ctDNA de 10%. Entretanto, a taxa de pacientes randomizados com ctDNA positivo foi de 2,9% e o estudo foi encerrado precocemente após o término do período de financiamento. Desta forma, foram randomizados 1.396 pacientes, dos quais 41 apresentavam ctDNA positivo (26 randomizados para quimioterapia e 15 para observação). Fatores de risco clínico estavam presentes em 9,5% dos pacientes. No grupo de quimioterapia, 81% dos pacientes iniciaram tratamento e 33% receberam oxaliplatina.

A SLD em 3 anos foi de 87% nos pacientes com ctDNA negativo e de 52% nos pacientes com ctDNA positivo (HR 0,23; IC95% 0,13 – 0,43; p<0,001). A sobrevida global em 3 anos foi de 98% e 88%, respectivamente (HR 0,18; IC95% 0,05 – 0,61; p=0,001). Na análise por protocolo dos grupos ctDNA positivos, excluindo os pacientes do grupo quimioterapia que não iniciaram tratamento, a SLD em 3 anos foi de 77% com quimioterapia adjuvante e de 38% com observação (HR 0,28; IC95% 0,09 – 0,94; p=0,022). Na análise por intenção de tratamento, a diferença não atingiu significância estatística.

A detecção de ctDNA após o tratamento cirúrgico de pacientes com CCR estádio II é um fator prognóstico negativo, porém seu valor em predizer o benefício de quimioterapia adjuvante ainda não foi bem estabelecido. O estudo CIRCULATE teve como objetivo endereçar essa questão, entretanto apresentou como limitações um recrutamento de pacientes com ctDNA aquém do planejado, possivelmente associado a teste com baixa sensibilidade e a perfil de pacientes de baixo risco; encerramento precoce e resultados positivos apenas na análise por protocolo.

Duração ideal de quimioterapia adjuvante em câncer colorretal (CCR) ressecado estádio I-IV baseada em dinâmica de DNA tumoral circulante (ctDNA)

Abstract 3501: Informing optimal duration of adjuvant chemotherapy (ACT) in resected stage I-IV colorectal cancer (CRC) based on early circulating tumor DNA (ctDNA) dynamics

O estudo GALAXY, braço observacional do estudo multicêntrico e prospectivo CIRCULATE-Japan, tem como objetivo monitorar a doença mínima residual por meio de ctDNA de pacientes com CCR submetidos a cirurgia com intenção curativa. A presente análise avaliou se a dinâmica de ctDNA poderia informar o risco de recorrência e benefício de extensão de quimioterapia adjuvante.

Foram incluídos 1.028 pacientes com CCR estádio I-IV que receberam quimioterapia adjuvante e realizaram análise de ctDNA informada pelo tumor (Signatera) antes do início de quimioterapia e após 3 meses de adjuvância. Os pacientes foram categorizados nas coortes quimioterapia longa (>3 meses, n=651) e curta (<3 meses, n=377) e de acordo com a dinâmica de ctDNA: negatividade sustentada (ctDNA negativo em ambas as aferições, n=809), clearance de ctDNA (positivo pré-quimioterapia e negativo após 3 meses, n=151), redução de nível sem negativação (n=28) e aumento de nível de ctDNA (n=29).

Não foi observado benefício de quimioterapia longa em pacientes com negatividade sustentada de ctDNA (HR 0,71; p=0,11) ou clearance de ctDNA (HR 1,06; p=0,84). Em contraste, nos pacientes com redução de nível de ctDNA sem negativação, quimioterapia longa esteve associada a maior sobrevida livre de doença (SLD) quando comparada com quimioterapia curta (SLD mediana de 5,9 versus 1,7 meses; HR 3,64, p=0,012). Pacientes com elevação de nível de ctDNA durante a adjuvância não tiveram benefício com quimioterapia longa (HR 1,82; p=0,18), sendo aventado pelos autores que estes pacientes apresentaram doença refratária à quimioterapia seriam beneficiados por troca de regime terapêutico.

Apesar das limitações inerentes a um estudo observacional, o ensaio GALAXY fornece informações relevantes sobre a correlação entre dinâmica de ctDNA e risco de recidiva de acordo com a duração de quimioterapia adjuvante. Os resultados apresentam plausibilidade biológica, mas devem ser idealmente confirmados em ensaios clínicos prospectivos.

Programa estruturado de exercício após quimioterapia adjuvante para câncer de cólon: Uma análise de custo-efetividade do estudo CHALLENGE

Abstract 3507: Structured exercise program following adjuvant chemotherapy for colon cancer: A cost-utility analysis of the CHALLENGE trial

O estudo CHALLENGE foi previamente apresentado na ASCO 2025 e publicado no New England Journal of Medicine em julho de 2025. Trata-se de um estudo fase III multicêntrico canadense que demonstrou ganho de sobrevida livre de doença (SLD) com a implementação de um programa estruturado de atividade física para pacientes com câncer de cólon localizado. Foram incluídos 889 pacientes com câncer de cólon estádio II de alto risco ou estádio III, previamente submetidos a ressecção cirúrgica e quimioterapia adjuvante. Os participantes foram randomizados na proporção de 1:1 para participar de um programa estruturado de exercício por 3 anos ou receber materiais de educação em saúde. Com um tempo de seguimento mediano de 7,9 anos, ocorreram eventos de SLD em 93 pacientes (20,9%) no grupo exercício e em 131 pacientes (29,5%) no grupo controle (HR 0,72; IC 95% 0,55 – 0,94; p=0,02). Também foi observado benefício em sobrevida global (HR 0,63; IC 95% 0,43 – 0,94) com a intervenção.

Este ano, foi apresentada uma análise econômica pré-especificada do estudo, com dados coletados prospectivamente. Apesar de um custo inicial de 2.917 dólares para implementar a intervenção, o programa estruturado de atividade física mostrou-se menos custoso e mais eficiente que o controle. Foram observadas reduções em gastos com diagnóstico e tratamento de recidivas ou novos tumores primários, bem como com cuidados de fim de vida, com uma economia de 1.589 dólares por paciente. Houve ainda um incremento de +0,06 anos de vida e de +0,1 anos de vida ajustados por qualidade (QALY) em relação ao grupo controle.

O estudo mostra que, além de reduzir recidivas, novos tumores primários e mortes, o programa estruturado de atividade física é custo-efetivo no contexto da saúde pública canadense. Embora os resultados da análise de custo-efetividade não possam ser diretamente extrapolados para outros cenários, por exemplo, sistemas de saúde em que os custos com tratamento oncológico e cuidados de fim de vida são inferiores, os dados do estudo CHALLENGE estimulam a incorporação de programas de exercício físico como parte do plano de tratamento de pacientes com câncer de cólon localizado.

Avaliadora científica:

Dra. Yumi Ricucci Shinkado

Oncologista clínica pelo ICESP/HCFMUSP

Oncologista no ICESP e na Oncologia D’Or São Paulo/SP

Instagram: @yumi.shinkado

Cidade de atuação: São Paulo/SP

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Editor
Dr. Ricardo Dahmer
Médico oncologista pelo Icesp. Saiba mais.
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