SBOC Review

Imunoterapia em dose ultrabaixa combinada à quimioterapia oral metronômica versus paclitaxel-carboplatina em carcinoma de células escamosas de cabeça e pescoço platino-sensível: Ensaio fase III randomizado

SBOC Review – Edição especial pós-ASCO 2026
Atualizações em Tumores de Cabeça e Pescoço

Abstract LBA6007: Ultra-low-dose immunotherapy plus oral metronomic chemotherapy versus paclitaxel-carboplatin in platinum-sensitive recurrent or metastatic head and neck squamous cell carcinoma: A randomized phase III trial

Este foi um estudo fase III, multicêntrico, aberto, conduzido em dois centros na Índia, que randomizou 422 pacientes com carcinoma de células escamosas de cabeça e pescoço recorrente ou metastático para receberem paclitaxel 175 mg/m² associado a carboplatina AUC 6 a cada 21 dias (grupo quimioterapia) ou o esquema TMC-I. O esquema TMC-I consiste da combinação de: (1) metotrexato oral 9 mg/m² semanal; (2) celecoxibe 200 mg duas vezes ao dia; (3) erlotinibe 150 mg ao dia; e (4) nivolumabe 20 mg intravenoso a cada três semanas. O tratamento era mantido até a progressão da doença ou toxicidade inaceitável. O desfecho primário foi sobrevida global (SG), enquanto os desfechos secundários incluíram sobrevida livre de progressão (SLP), taxa de resposta objetiva (TRO), segurança e qualidade de vida.

A maioria dos participantes era de homens tabagistas com tumores primários de cavidade oral; aproximadamente um quarto possuía doença metastática ao diagnóstico. Com mediana de seguimento de 10,8 meses no controle e 11,9 meses no grupo TMC-I, o estudo atingiu seu desfecho primário. A SG em 12 meses foi de 46% no grupo TMC-I versus 23% no grupo quimioterapia, com mediana de 10,3 meses versus 6,2 meses (HR 0,565; IC 95% 0,439-0,728; p<0,001).

Os desfechos secundários também foram superiores com a estratégia TMC-I, incluindo SLP – mediana de SLP de 5,5 meses versus 2,7 meses (p<0,001) – e TRO – 53,4% vs. 24,1% (p<0,001). A estratégia experimental também foi mais bem tolerada, com eventos adversos grau ≥3 observados em 34,1% vs. 46,4% no grupo controle.

Embora o esquema paclitaxel-carboplatina não represente o comparador contemporâneo ideal em países de alta renda, onde combinações baseadas em pembrolizumabe ou cetuximabe são o padrão – ele permanece uma alternativa amplamente empregada em cenários com restrição de recursos. Nesse contexto, o estudo torna-se particularmente relevante ao explorar uma estratégia de intensificação terapêutica de baixo custo baseada em doses ultra reduzidas de imunoterapia. A hipótese central é que doses substancialmente menores de nivolumabe possam ser suficientes para promover ocupação adequada do receptor PD-1 e desencadear o efeito farmacológico desejado, reduzindo drasticamente os custos do tratamento. Além de proporcionar ganho em sobrevida e menor toxicidade, a estratégia TMC-I apresenta potencial para ampliar o acesso à imunoterapia em sistemas de saúde com limitações financeiras, tornando-se uma alternativa particularmente atraente para países de renda média e baixa.

Amivantamabe em câncer de cabeça e pescoço recorrente/metastático não relacionado ao HPV após progressão com inibidor de checkpoint imunológico e quimioterapia: Resultados pivotais do estudo fase 1b/2 OrigAMI-4

Abstract 6008: Amivantamab in HPV-unrelated recurrent/metastatic head and neck squamous cell cancer after disease progression on immune checkpoint inhibitor and chemotherapy: Pivotal results from the phase 1b/2 OrigAMI-4 study

O estudo OrigAMI-4 foi uma fase 1b/2, apresentado em sessão oral, cuja coorte 1 avaliou amivantamabe subcutâneo em pacientes com câncer de cabeça e pescoço. A posologia envolvia, no primeiro ciclo, aplicações no D1, D8 e D15; em ciclos subsequentes, a cada três semanas. Foram incluídos pacientes com progressão à primeira linha com quimioterapia e imunoterapia, e excluídos aqueles com terapia anti-EGFR prévia.

O desfecho primário foi taxa de resposta objetiva (TRO) baseada no RECIST 1.1. O tamanho amostral foi calculado para obter mais de 99% de poder estatístico para rejeitar que a hipótese nula de que a TRO seria de 10% ou menos, assumindo que a verdadeira TRO fosse de 30% com alfa bicaudado de 5%.

Em um seguimento mediano de 9 meses, 102 pacientes haviam recebido pelo menos uma dose de amivantamabe. A idade mediana foi de 63 anos, com maioria de homens. A TRO foi de 47% (48/102; IC 95%, 37%-57%), com quatro respostas completas e 44 respostas parciais; 39 pacientes apresentaram doença estável. A duração de resposta foi de 7,2 meses (IC 95%, 5,8-NE). A mediana de tempo para resposta foi de apenas 6,6 semanas. A sobrevida livre de progressão mediana (SLP) foi de 6,8 meses (IC 95%, 5,2-8,2). Os efeitos colaterais mais comuns foram relacionados ao bloqueio de EGFR/MET, incluindo hipoalbuminemia, dermatite acneiforme, paroníquia, estomatite e fadiga. 6% descontinuaram o tratamento por toxicidades.

O cenário do OrigAMI-4 é desafiador, visto o prognóstico desfavorável de tumores não relacionados ao HPV em linhas subsequentes, com baixas taxas de resposta objetiva. Diante disso, a magnitude dos resultados observados com amivantamabe é particularmente expressiva e merece estudos adicionais.

Radioterapia adjuvante versus observação após cirurgia curativa para carcinoma de epidermóide de cavidade oral em estágio inicial (AREST; CTRI/2017/07/009114)

Abstract 6000: Adjuvant radiotherapy versus observation following curative surgery for early-stage oral squamous cell carcinoma (AREST; CTRI/2017/07/009114)

O AREST foi uma fase III multicêntrica desenhada para avaliar o impacto da radioterapia adjuvante em tumores de cavidade oral com doença limitada. Foram randomizados pacientes com tumores de cavidade oral pT1-pT2, pN0, completamente ressecados, com margens livres (definidas como ≥5 mm), dissecção de ao menos dezesseis linfonodos ipsilateralmente em níveis I-III, e um ou mais fatores de risco intermediário. Os pacientes elegíveis foram estratificados conforme subsítio tumoral, presença de invasão perineural ou angiolinfática, e grau de diferenciação, e randomizados 1:1 para observação ou radioterapia adjuvante na dose de 60 Gy em 30 frações em leito tumoral e cadeias de drenagem cervical. O desfecho primário foi sobrevida livre de recorrência locorregional (SLRL).

Dos 392 pacientes incluídos, 191 foram submetidos a radioterapia adjuvante e 201 a observação. Em um seguimento mediano de 47,2 meses (30-59,4 meses), as estimativas de SLRL em 3 anos foram de 89,2% com radioterapia e 80,9% com observação (HR 0,52, IC 95% 0,3-0,91; p=0,02) na população por intenção de tratar. Em análise por protocolo, o benefício se mostrou mais expressivo, com SLRL de 91,1% versus 80,9% (HR 0,43; IC 95% 0,23-0,8; p=0,01). A incidência de falha locorregional com morte foi de 10,6% (IC 95%, 6,1-15,1) na população irradiada e de 18,9% (IC 95%, 13,3-24,6%) no grupo controle (HR 0,52; IC 95% 0,3-0,91; p=0,021) na população por intenção de tratar; e 8,7% (IC 95%, 4,3-3,1%) versus 18,9% (IC 95%, 13,3-24,6%) (HR 0,43; IC 5% [0,23-0,79]; p=0,007) em análise por protocolo. Não foi observada diferença em sobrevida global. O subgrupo que mais ganhou com a adição de radioterapia adjuvante foi o de câncer de língua, quando comparado ao de mucosa oral.

O papel da radioterapia adjuvante em tumores iniciais da cavidade oral, linfonodo-negativos e portadores de um ou mais fatores de risco intermediário, fundamenta-se historicamente em estudos retrospectivos. Embora o ganho absoluto em sobrevida livre de recorrência locorregional (SLRL) tenha sido de aproximadamente 8%, observou-se redução relativa de 48% no risco de recorrência locorregional, clinicamente relevante. Apesar disso, esse benefício não se traduziu em ganho de SG.

FID-007 em combinação com cetuximabe em carcinoma de células escamosas de cabeça e pescoço recorrente ou metastático (R/M)

Abstract 6020: FID-007 in combination with cetuximab in recurrent or metastatic (R/M) head and neck squamous cell carcinoma (HNSCC)

O FID-007-003 é um estudo fase II, randomizado, multicêntrico, aberto, testando FID-007: uma forma nanoencapsulada do paclitaxel com um excipiente proprietário à base de poli(2-etil-2-oxazolina). Esse agente foi desenvolvido para superar as limitações de solubilidade e restrições de penetração tecidual do paclitaxel convencional.

Foram incluídos pacientes com câncer de cabeça e pescoço recorrente ou metastático com progressão a no máximo uma linha prévia de tratamento, que deveria obrigatoriamente conter imunoterapia. Taxanos ou cetuximabe no cenário recorrente/metastático não eram permitidos.

Os pacientes foram randomizados 1:1 para uma das duas doses de FID-007: Braço A (75 mg/m²) ou braço B (125 mg/m²), por via intravenosa nos dias 1, 8 e 15. A partir do ciclo 2, cetuximabe 500 mg/m² intravenoso era adicionado nos dias 1 e 15 de ciclos de 28 dias. O desfecho primário foi taxa de resposta objetiva (TRO) conforme RECIST 1.1.

Ao todo, 45 pacientes foram randomizados, dos quais 42 foram avaliáveis para eficácia. No braço A, a TRO foi de 60%, com 17% de respostas completas. Por sua vez, no braço B, a TRO foi de 61%, com 22% de respostas completas. A mediana de sobrevida livre de progressão (SLP) foi de 7,2 meses para ambos os grupos. A duração de resposta mediana foi de 7,4 meses (não atingida no braço B, onde 56% dos respondedores permaneciam em resposta). A maioria das toxicidades foi leve; neutropenia, anemia, leucopenia, dermatite acneiforme e rash foram as toxicidades grau 3-4 mais frequentes.

FID-007 demonstrou atividade antitumoral promissora em pacientes com carcinoma de células escamosas de cabeça e pescoço recorrente ou metastático previamente expostos à imunoterapia, alcançando taxas de resposta objetiva superiores a 60% em ambas as coortes avaliadas. Os resultados tornam-se particularmente interessantes em um cenário terapêutico historicamente desafiador, no qual as opções de segunda linha após falha à imunoterapia costumam apresentar baixas taxas de resposta e sobrevida livre de progressão em torno de 2 a 3 meses. Entretanto, por se tratar de um estudo fase II, com pequeno número de pacientes e sem comparador convencional, os achados devem ser interpretados com cautela, aguardando confirmação em estudos maiores antes de uma eventual incorporação à prática clínica.

Avaliador científico:

Dr. Matheus Yung Perin

Oncologista clínico pela Unicamp – Campinas/SP

Residência em Clínica Médica pelo Hospital São Matheus/Cuiabá

Mestre em Ciências – FCM/Unicamp

Cidade de atuação: Cuiabá/MT

Leia mais artigos

Buscar por
título do artigo
Editor
Dr. Ricardo Dahmer
Médico oncologista pelo Icesp. Saiba mais.
Conheça mais sobre o SBOC Review!
Assine nossa newsletter

Endereço
Avenida Paulista, 2073, Edifício Horsa II – Conjunto Nacional Conj. 1003, São Paulo/SP, 01311-300

Telefone
+55 (11) 3192-9284

2026 © Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC)