
Como oncologista desde 2001, atesto que a qualidade da formação médica na nossa área só melhora, devido ao maior acesso às informações; aos aprimoramentos dos protocolos de segurança; ao rigor dos critérios de seleção e avaliação dos pacientes a partir de marcadores mais objetivos, como os moleculares; e ao trabalho rotineiro dentro de um ambiente cada vez mais multidisciplinar.
Por outro lado, percebo que precisamos ir mais longe, além da base assistencial que nos norteia, que sim, deve continuar sendo impecável e atualizada com uma frequência quase obsessiva. Ser um bom médico requer aptidões que vão além de ser um bom assistencialista, de conhecer as nuances da doença, dos mais recentes tratamentos e das novas tendências na nossa área. Ser um médico mais completo nos dias de hoje exige mais, pois nos demanda aquisição de outras qualidades que nos levem a uma maior colaboração e entrega para com a sociedade médica e não médica.
Ao meu ver, o médico moderno deve ter formação e participação que extrapolem a assistência, envolvendo pesquisa clínica e translacional, atividades acadêmicas, gestão e liderança, poder de comunicação e atuação no terceiro setor e nas políticas públicas. E, sem sombra de dúvidas, um olhar absolutamente empático sobre o paciente. Assim, falamos da humanização do conhecimento. Com este conjunto, consegue-se uma diferenciação única e relevante, independente da magnitude e complexidade do serviço em que se trabalha.
A pesquisa clínica e translacional, por exemplo, além de gerar impacto direto aos pacientes e às famílias, permite ao médico participar de tratamentos inovadores, entender fluxos rigorosos que as pesquisas exigem, participar de reuniões com grandes líderes mundiais e se diferenciar. Liderar ou fazer parte de estudos que mudam o tratamento de um tumor certamente distingue esse profissional da maioria de seus pares. Dar uma aula com dados e estudos de outros colegas tem valor, mas com estudos em que participamos é ainda mais especial.
Mas, como tudo na vida, trata-se de um processo contínuo. É preciso organização do banco de dados de sua clínica ou instituição, análises retrospectivas, relatos de caso e meta-análises para depois, com muita perseverança, participar de estudos prospectivos.
A academia é outra área fundamental. Além de promover maior capacitação e, consequentemente, melhor cuidado aos pacientes, torna o profissional um formador de opinião. Assim como na pesquisa clínica, na academia os passos devem ser contínuos, organizando eventos, estruturando tumor boards e participando de iniciativas externas como advisory boards, consensos, aulas e surveys. Ter uma ligação formal com universidades, assim como fazer mestrado, doutorado e livre-docência, também é essencial, pois contribui para a evolução da ciência.
Tornar-se um líder de opinião é algo que, hoje em dia, deve ser uma meta, pois cada vez mais as subespecialidades vêm se consolidando e parte das referências de pacientes ocorre em função dessas qualificações.
Liderança e gestão médica são outros dois componentes fundamentais. Isso não significa, necessariamente, que o profissional deva ser chefe de um serviço ou liderar centenas de pessoas, mas ter ferramentas para que consiga entregar o melhor resultado possível dentro de um trabalho de time, por meio de análise lógica e estruturada, organização de fluxos e gestão de pessoas e projetos.
Analisar se os fluxos de tratamento estão adequados, se os protocolos são os mais custo-efetivos, estruturar critérios que avaliem a qualidade do serviço sob a ótica do usuário, implementar protocolos de segurança e identificar oportunidades de crescimento são ações essenciais, independentemente do tamanho e da complexidade do serviço onde trabalhamos.
Engajar e organizar pessoas em suas funções, estruturar reuniões de qualidade e promover melhoria contínua do seu serviço são fundamentais para qualquer profissional da nossa área. Como poucos fazem isso, tais práticas trazem enorme diferenciação para quem as adota.
Ao meu ver, além das aptidões naturais de cada um, todos os profissionais deveriam, de alguma forma, ser expostos a esse tipo de formação de maneira mais formal.
A comunicação, base das nossas relações pessoais e da nossa profissão, sempre foi vista como algo desencorajado em larga escala. Fico feliz que alguém que admiro tanto, o Dr. Dráuzio Varella, tenha quebrado esse paradigma.
Hoje, com a amplitude e o impacto das mídias sociais, vemos a importância na sociedade do médico como comunicador. Não apenas para alertar sobre exames de rastreamento relevantes, questões relacionadas ao estilo de vida ou novidades publicadas no Lancet ou NEJM, ou apresentadas na ASCO ou ESMO. Mas também como um agente neutralizador de fake news, que podem ceifar vidas. A dimensão e o poder de uma boa informação podem ajudar milhares de pacientes e famílias, em números muito superiores ao atendimento individual no consultório. Além disso, a comunicação e o engajamento em temas relacionados à inequidade podem estimular, inspirar e até pressionar os poderes Executivo e Legislativo por melhores caminhos no Brasil.
O oncologista deve também se engajar em atividades do terceiro setor, com o objetivo de servir à sociedade da melhor forma possível, a partir de sua formação técnica e humanística, devolvendo, dentro de nossos privilégios, nossas responsabilidades para os mais necessitados.
Isso, ao meu ver, agrega imenso valor à imagem do médico junto à sociedade médica e civil, diferenciando-o como alguém comprometido com o bem comum.
Da mesma forma, considero importante que médicos se envolvam em iniciativas voltadas à criação ou modificação de políticas públicas. Isso inclui trabalhar relacionamentos com esses objetivos e interagir com pacientes, famílias e a sociedade.
Por fim, a grande mágica é conseguir fazer tudo isso com equilíbrio, ética, tempo para a família e amigos, cuidado com o corpo e com a mente, sempre regado a alegria e felicidade. Posso dizer que não é fácil nem simples, mas, com toda a certeza, é possível, com organização, foco, amor pela missão e um interesse genuíno em servir o próximo.
Formações e atuações importantes para o oncologista do mundo moderno:

Dr. Fernando Cotait Maluf é oncologista clínico no Hospital Israelita Albert Einstein, diretor do Centro de Oncologia da BP (Beneficência Portuguesa), cofundador do Instituto Vencer o Câncer, professor da Santa Casa de SP e associado SBOC desde 2005.
