A força do acolhimento: da infância simples à liderança na oncologia potiguar

O destino de Sulene Cunha Sousa Oliveira começou a ser traçado cedo. Desde pequena, foram muitos desafios, que ela enfrentou, um a um, movida pela persistência, garra e fé. O cenário era adverso, mas não para a criança que via nos seus sonhos a realidade do amanhã. Nas brincadeiras com as bonecas, seu papel favorito era o de médica.
Ao acompanhar os pais em consultas médicas, tanto para ela – que convivia com crises de asma – quanto para eles, chamava sua atenção o comportamento dos profissionais. Observava a diferença entre os médicos que estavam atentos e conectados aos pacientes e aqueles que se detinham apenas a olhar o papel. Já começava, então, a se descortinar o sonho da menina.
Nascida em Mossoró, interior do Rio Grande do Norte, ela se mudou com cerca de um ano para Natal, capital do estado.
Seus pais biológicos tinham seis filhos e, por razões econômicas, ela foi viver com seus tios, que se transformaram em seus pais – um casal formado por uma manicure e um auxiliar de serviços gerais.
A trajetória acadêmica de Sulene é um testemunho de solidariedade e esforço contínuo. Estudando em escola pública, ela sempre manteve regularidade e notas altas. Por conta da rotina de trabalho dos pais, seus boletins eram recolhidos por vizinhos e amigos. “Foi quando, na 7ª série, a professora de matemática avisou que só me entregaria o boletim e me passaria de ano se a minha mãe fosse conversar com ela”, relembra.
No momento, ela não entendeu o motivo da convocação, mas o objetivo da professora era chamar atenção da mãe para a dedicação e habilidade, acima da medida, da menina. A partir daquele momento, seus pais procuraram meios de investir em seus estudos e uma das clientes de sua mãe começou a pagar as mensalidades em uma escola privada.
Após muito estudo e persistência diante da alta concorrência, Sulene conquistou a vaga em Medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Se no início o sonho era a obstetrícia, o contato com a realidade oncológica no quinto período da faculdade, durante um estágio na Liga Norte Riograndense Contra o Câncer, mudou seu foco profissional para sempre.
Ao testemunhar a luta de pacientes do SUS que chegavam com casos avançados da doença, mas cheios de esperança, ela compreendeu que sua missão era ser a ponte entre a ciência de ponta e o acolhimento humano. Para Dra. Sulene, a oncologia não era apenas uma especialidade médica, mas um chamado para atuar onde a vulnerabilidade humana é mais latente.

Especialização e consolidação
Após completar a Residência em Clínica Médica em Brasília, a médica retornou para Natal, onde especializou-se em Oncologia Clínica pela Liga Norte Riograndense Contra o Câncer, instituição na qual começou a atuar na sequência e hoje considera sua segunda casa. Na instituição, sua atuação é um equilíbrio preciso entre assistência, ensino e gestão.
Como coordenadora da Oncologia Clínica, ela se orgulha de ver a instituição crescer e se consolidar como o nono maior centro de pesquisa clínica do Brasil. Em termos de pesquisa, Dra. Sulene atingiu, em 2025, a marca de pesquisadora com o maior número de inclusões de pacientes em protocolos de estudo na Liga, provando que é possível fazer ciência de alto nível e oferecer tratamentos inovadores fora do eixo Sudeste.
Para ela, a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, da qual é associada desde 2009 e foi Representante Regional no Nordeste em 2023, desempenha um papel vital nessa descentralização. Dra. Sulene destaca como a entidade passou a ouvir, nos últimos anos, mais as vozes do Norte e Nordeste, oferecendo, entre diversos benefícios, Diretrizes que guiam sua prática diária e o Programa de Residência Médica em Oncologia Clínica (PROC) – documento que ela já utilizou na formação dos novos residentes na Liga.
Segundo conta, o dia a dia na Liga é intenso, envolvendo desde a gestão de equipes multiprofissionais até o contato direto com os pacientes do SUS. No atual desenvolvimento da especialidade, a oncologista clínica acredita no trabalho em conjunto com psicólogos, nutricionistas, enfermeiros e demais profissionais da área da saúde como necessário para as exigências que o tratamento do câncer impõe.
Sua atuação de destaque na Liga lhe rendeu um grande mérito: em 2025, ela recebeu, em ato solene na Câmara Municipal de Natal, o Título de Cidadã Natalense. Na ocasião, os parlamentares exaltaram a sua trajetória como a de uma mulher profundamente comprometida com o bem-estar das pessoas e movida por propósito, esforço, dedicação e responsabilidade com o próximo.
Refúgio na simplicidade
Fora da rotina intensa do hospital e dos centros de pesquisa, Dra. Sulene encontra seu refúgio na simplicidade e na família. Casada há 16 anos com Rodrigo, ela vivencia a maternidade de forma profunda e transformadora com o filho Heitor Carlos, de 14 anos. O diagnóstico de autismo nível 3 de Heitor trouxe novos desafios e significados, mas ela o descreve como um “anjo” enviado para lhe ensinar mais sobre o equilíbrio da vida.


Para ela, parte do lazer vem do silêncio e da contemplação. É na tranquilidade da Lagoa do Bonfim, em Nísia Floresta — a cerca de 30 km de Natal (RN) e longe do barulho urbano e da pressão profissional — que ela recarrega suas energias. Uma sessão de cinema caseira com pipoca ao lado da família ou uma viagem são momentos de desconexão necessários para manter a mente sã. Outro momento de muito prazer são as participações em congressos internacionais — como os da ESMO e da ASCO, que frequenta anualmente — quando pode rever amigos e fortalecer o networking.
Recentemente, Dra. Sulene descobriu no beach tennis uma nova paixão esportiva. “Nunca tive aptidão para o esporte. Na escola, era péssima. Levava jeito apenas para estudar. Mas, agora, percebi que levo jeito para esse esporte. Nós sempre aprendemos coisas sobre a gente. Se tivesse contato com o beach tennis há 30 anos, talvez tivesse sido uma esportista”, brinca.
