
Ao final de 2025, Dra. Angélica Nogueira encerrou seu ciclo como Presidente da SBOC, marcado pelo fortalecimento inédito do diálogo institucional, pela consolidação da diversidade e pela ampliação do protagonismo brasileiro na América Latina.
Agora, Dra. Clarissa Baldotto assume o posto para 2026, trazendo como prioridades o aprimoramento da educação médica e a defesa incansável da especialidade.
Nesta entrevista, as duas lideranças se encontram em um diálogo que une passado e futuro. Leia a seguir:
Dra. Angélica Nogueira: Em 2025, tivemos como foco a premissa de que não há avanço real sem acesso; e, dentro desse objetivo, fizemos um ofício ao Ministério da Saúde defendendo a reestruturação da política nacional de incorporação de tecnologias oncológicas no SUS, com base em eixos estratégicos definidos; e assinamos um acordo de cooperação técnica com o Ministério da Saúde e OPAS. Na sua opinião, como a SBOC pode continuar contribuindo para ampliar o acesso da população aos melhores cuidados oncológicos?
Dra. Clarissa Baldotto: Este movimento de aproximação entre a SBOC e o Ministério foi inédito e muito importante, com potencial de trazer diversos benefícios para a população. Pretendemos oferecer apoio técnico para decisões que são fundamentais na garantia de acesso, como o processo de reformulação da APAC, o treinamento e a atualização de profissionais de saúde e o incentivo à pesquisa clínica. O próximo passo é a assinatura do já planejado acordo de cooperação técnica com o Ministério e a OPAS. Nossas Diretrizes de tratamento e o Índice de Priorização de Medicamentos também podem oferecer uma base sólida e técnica para o processo de incorporação tecnológica.
Dra. Angélica Nogueira: A OncoAcademy nasceu como um pilar de expansão do ensino oncológico. Como podemos escalar essa plataforma para que ela se torne o hub central de atualização do oncologista, desde o residente até o profissional sênior? E como a SBOC tem pretendido fortalecer a educação oncológica de forma geral?
Dra. Clarissa Baldotto: A SBOC carrega desde a sua origem a missão de promover educação continuada para os seus membros. Nos últimos anos criamos a Escola Brasileira de Oncologia (EBO), nos aproximamos dos programas de Residência Médica e aprimoramos a prova do Título de Especialista. A OncoAcademy é uma plataforma dedicada, que permitirá maior liberdade e a modernização da produção de conteúdo, pensada para especialistas, residentes e graduandos. Além disso, a valorização da oncologia nas universidades é outro objetivo.
Começamos uma aproximação com a Associação Médica Brasileira (AMB) e o Ministério da Educação para defender que o ensino médico se adapte às mudanças epidemiológicas. Temos o projeto de desenvolver um programa com conteúdo educacional que possa ser usado como referência, à semelhança do que é feito em sociedades de outros países, e estamos em contato com diversas Ligas Acadêmicas de Oncologia para apoiá-las.
Dra. Angélica Nogueira: Com a criação da Aliança Latino-Americana de Sociedades de Oncologia Clínica (ALAS), abrimos um relevante canal de parceria internacional. Como você enxerga o papel da SBOC nesta parceria?
Dra. Clarissa Baldotto: A possibilidade de expandir parcerias é fruto do processo de amadurecimento da SBOC. Já tínhamos acordos de cooperação com a ASCO e a ESMO, mas a ALAS, criada a partir do movimento voluntário de várias sociedades latino-americanas, tem um grande potencial. Almejamos produzir dados regionais, discutir problemas e soluções que são comuns à região e fortalecer nossa participação global. É uma grande oportunidade para o Brasil, em um momento em que mesmo países desenvolvidos enfrentam problemas de financiamento e acesso, e a pesquisa clínica busca diversidade.
Dra. Angélica Nogueira: Como pretende propor novas dinâmicas para fomentar o engajamento dos associados nas decisões da SBOC?
Dra. Clarissa Baldotto: A participação dos oncologistas brasileiros é fundamental para a existência e perenidade da SBOC, que vem se dedicando a ampliar o contato com seus membros, facilitando o modelo de associação, estimulando a participação em seus Comitês e criando cargos e eventos regionais. Também identificamos que tornar nossa comunicação mais eficiente estimula a participação e, por isso, criamos em 2026 um Comitê de Comunicação, que desenvolverá novos projetos nessa área.
Dra. Angélica Nogueira: Você já declarou o desejo de buscar pelo “estado da arte” da oncologia, sem deixar o lado humano de lado. No fim de 2026, qual marca pessoal você gostaria de ter deixado na história da oncologia brasileira?
Dra. Clarissa Baldotto: Quando falamos em “marca pessoal”, confesso que penso menos em algo que leve o meu nome e mais em algo que faça sentido para a coletividade. Tive a honra de participar da Diretoria da SBOC por vários anos e sinto que a Sociedade já carrega muito da minha dedicação, assim como carrega o trabalho de tantas outras pessoas que construíram essa história comigo.

O que eu realmente gostaria de deixar ao final de 2026 não é uma marca individual, mas um passo a mais na consolidação da SBOC como um verdadeiro balizador da educação em oncologia no Brasil – uma instituição que ajude a organizar o conhecimento e qualificar a prática clínica. Quero que a SBOC seja, cada vez mais, uma voz qualificada para a sociedade, ajudando a traduzir a complexidade da oncologia para gestores, pacientes e para o debate público.
Mas, acima de tudo, desejo que continue sendo uma casa forte e acolhedora para o oncologista clínico, nosso membro, que encontra na Sociedade apoio científico, representação profissional e sentido de pertencimento.
E, quando falo em buscar o “estado da arte” da oncologia, não vejo isso como um ponto fixo a ser alcançado. Para mim, é um movimento contínuo – uma busca permanente por mais precisão, mais sensibilidade, mais integração entre ciência e humanidade. É entender que a excelência não é estática: ela se constrói, se revisa e se aprimora todos os dias.
Se, ao final desse período, tivermos avançado um pouco nessa direção, trabalhando juntos e deixando a Sociedade mais forte do que a encontramos, isso já terá valido a pena.
