Por Dra. Regina Chamon
Logo que comecei a conduzir grupos de meditação para pacientes em uma clínica de oncologia, há quase uma década, lembro-me de uma moça me dizer que receber o diagnóstico da doença era como tomar um caldo da vida. Saber que você está com uma condição que ameaça a continuidade da sua existência é uma das situações mais pronunciadas de estresse que posso imaginar.
Incerteza sobre o que vem pela frente, sintomas físicos da doença e do próprio tratamento, uma série aparentemente infindável de exames e procedimentos, fazendo com que a pessoa não tenha muita previsibilidade da sua própria agenda e ainda por cima uma percepção de que controla pouco, ou quase nada, do que acontece em seu corpo. Você perde o rumo, engole um pouco de água, sofre um tanto, mas consegue retomar a direção.
Essa mesma paciente também me disse que a volta da doença foi como um tsunami. Para ela parecia não haver nenhuma possibilidade de sair da situação, não sabia onde estava o fundo tampouco para qual lado ficava a superfície. Lidar tão de frente com a finitude da vida pode não ser apenas uma condição extremamente estressante, é também um desafio muito solitário para os pacientes. Tantas questões físicas e emocionais se refletem na grande incidência de transtornos psiquiátricos nos pacientes oncológicos, com 18% dos pacientes apresentando diagnóstico de ansiedade e 21% depressão (1).
Na recente diretriz de manejo de ansiedade e depressão publicada em 2023, em uma parceria da ASCO com a Society for Integrative Oncology, após avaliação de meta-análises e revisões sistemáticas que incluíram cerca 29 ensaios clínicos randomizados individuais uma das recomendações mais fortes de manejo destas condições clínicas é o uso de Intervenções Baseadas em Mindfulness (2).
Estas intervenções consistem em um conjunto de técnicas que incluem exercícios respiratórios, práticas de atenção plena ao momento presente e técnicas de meditação, que promovem alterações fisiológicas como a regulação do sistema nervoso autônomo, com ativação parassimpática e redução da ativação simpática, redução da expressão do fator de transcrição NFkB, com consequente redução da inflamação crônica de baixo grau, e redução da velocidade de encurtamento dos telômeros, com taxa reduzida envelhecimento celular (3). Esses são alguns dos mecanismos pelos quais a meditação melhora uma ampla gama de sintomas.
Ao longo dos últimos anos, muitos estudos vêm mostrando que a meditação pode melhorar a fadiga relacionada ao câncer (4-6). As causas deste benefício podem ser muitas: melhora da qualidade do sono, redução de substâncias inflamatórias na circulação, redução da ansiedade ou a mudança da percepção que a pessoa tem sobre a fadiga, minimizando seus impactos afetivos.
No que se refere ao tratamento da dor, presente em grande parcela dos pacientes oncológicos, e frequentemente persistente mesmo após o término do tratamento, as terapias mente-corpo, como meditação e Ioga, podem ter uma ação na redução de substâncias inflamatórias e relaxamento de tensões musculares que intensificam o quadro de dor, mas ainda são necessários mais estudos neste sentido quando a questão é dor oncológica (7). Para estes pacientes, o benefício vem menos por reduzir a sensação de intensidade e muito mais por mudar a relação da pessoa com a dor, tornando o componente emocional menos desagradável.
Outra queixa que interfere significativamente na qualidade de vida dos pacientes oncológicos são as disfunções cognitivas relacionadas à quimioterapia, principalmente para pacientes mais jovens e que seguem ativos em sua vida profissional. Um estudo com 60 mulheres avaliou o impacto da meditação em minimizar a alteração da memória após o tratamento do câncer de mama, mostrando que o fortalecimento da atenção pode ser um recurso adequado nestes casos (8).
Os benefícios da meditação, não apenas na oncologia, mas no que se refere à saúde, na minha perspectiva, não se relacionam tanto com a reversão fisiopatológica da doença, mas muito mais com a melhora da qualidade de vida, da capacidade de coping, da mudança sobre a percepção da doença e da redução do impacto emocional que ela promove.
Após longos anos praticando meditação e ensinando pacientes oncológicos, seus familiares e também profissionais de saúde a meditar, percebo que essa prática cuida de todos os envolvidos nesta jornada. Nos permite aliviar o sofrimento do corpo, ver a realidade com mais clareza, mas acima de tudo, modifica nosso convívio conosco, com os sintomas e com aqueles que nos rodeiam. E no final, transforma a nossa relação com a própria vida.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Endereço
Avenida Paulista, 2073, Edifício Horsa II – Conjunto Nacional Conj. 1003, São Paulo/SP, 01311-300
Telefone
+55 (11) 3192-9284