Por Georgia Oliveira e Giovanna Mendes
O câncer de mama é a neoplasia mais incidente em mulheres em todo o mundo [1]. Seus fatores de risco envolvem determinantes endócrinos, história reprodutiva, fatores comportamentais e ambientais – destacando-se a ingestão de bebidas alcoólicas, o sobrepeso e obesidade, a inatividade física e a exposição à radiação ionizante [2] .
O excesso de adiposidade está associado à produção aumentada de mediadores inflamatórios e anormalidades metabólicas e endócrinas, que promovem o crescimento celular desordenado, configurando-se como fator de risco para diversas doenças, incluindo o câncer [3]. Segundo o World Cancer Research Found, a obesidade está relacionada ao aumento de risco de pelo menos 13 tipos de câncer, incluindo o câncer de mama (especialmente pós-menopausa) [4].
Após o diagnóstico do câncer de mama, o ganho de peso é frequentemente observado durante e após o tratamento e está associado a piores resultados de sobrevida, particularmente em mulheres com tumores positivos para receptor de estrogênio. Níveis elevados de gordura corporal aumentam o risco de recorrência da doença, sobretudo nesta população, devido ao aumento da atividade da aromatase e dos níveis circulantes de estrogênios e androgênios [5, 6]. Além disso, o excesso de gordura corporal relaciona-se com alterações no metabolismo da insulina e das adipocinas, comprometimento da imunidade antitumoral e inflamação sistêmica crônica de baixo grau [6].
Paralelamente, mudanças do padrão alimentar demonstram aumento do consumo de alimentos ultraprocessados e redução de alimentos in natura e minimamente, como grãos integrais, frutas, legumes e verduras [7, 8]. Evidências demonstram associação significativa e consistente entre a ingestão de alimentos ultraprocessados e o risco de câncer, incluindo câncer colorretal, de mama e pancreático [9].
A dieta é considerada um dos fatores modificáveis mais importantes na prevenção do câncer. A literatura sugere que padrões alimentares específicos e determinados nutrientes podem contribuir para a redução do risco de câncer de mama e para melhorar o prognóstico entre sobreviventes [10].
Entre os padrões alimentares mais populares atualmente estudados na prevenção e no tratamento do câncer destaca-se o padrão da dieta mediterrânea, caracterizada por elevado consumo de alimentos vegetais, frutas frescas, grãos integrais, leguminosas, sementes e fontes de gorduras insaturadas (particularmente o azeite de oliva e os ácidos graxos ômega-3), além do baixo ou limitado consumo de carne vermelha e gordura animal. Esse perfil alimentar apresenta reconhecidas propriedades anti-inflamatórias atribuídas à elevada concentração de compostos bioativos (polifenois, carotenoides, flavonoides), além de prebióticos, micronutrientes antioxidantes (vitaminas C e E, selênio, zinco, magnésio) e substâncias com ação imunomoduladora [11, 12].
A adoção de padrões alimentares com potencial anti-inflamatório pode modular mecanismos como danos e reparo do DNA, estresse oxidativo e modificações genéticas. Por essa razão, a dieta mediterrânea tem sido amplamente estudada em oncologia [11-13].
Recentemente, resultados de um estudo clínico multicêntrico randomizado de fase III apresentados no Congresso da American Society of Clinical Oncology (ASCO) em 2026, reforçaram a relevância das intervenções no estilo de vida em mulheres com diagnóstico de câncer de mama. O estudo realizado em sete centros oncológicos na Itália realizou intervenção com aconselhamento sobre dieta mediterrânea, padrão dietético de baixo índice glicêmico, estímulo à atividade física e suplementação de vitamina D e observaram que mulheres com câncer de mama hormônio-positivo que apresentaram maior adesão ao programa de intervenção demonstraram uma redução de 76% no risco de recorrência da doença. A perda de peso foi significativamente maior no grupo de intervenção, bem como a probabilidade de remissão da síndrome metabólica.
Esses achados reforçam o papel da sinergia entre alimentação saudável, atividade física regular, adequação do estado nutricional e controle de peso corporal como estratégias eficazes para a prevenção da recorrência, melhora do prognóstico e promoção da saúde em mulheres sobreviventes ao câncer de mama e para redução do risco do desenvolvimento da doença.
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