
Especialistas em oncologia, pesquisadores, gestores e pacientes reuniram-se nesta quarta-feira, 09 de setembro, em São Paulo para a 6ª edição do Retratos do Câncer, fórum realizado pelo Estadão Blue Studio – iniciativa do grupo de mídia O Estado. A Presidente de Honra da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), Dra. Angélica Nogueira, representou a entidade no evento.
Dra. Angélica participou do primeiro painel do dia, que debateu o diagnóstico precoce do câncer em populações jovens, chamando atenção à fragmentação e necessidade de avançar no conhecimento deste dado epidemiológico no Brasil. Enfocou também um dos tumores com maior potencial de prevenção e eliminação nas próximas décadas: o câncer do colo do útero. Ela enfatizou que a doença afeta principalmente mulheres em idade produtiva e reprodutiva, ampliando seus impactos sociais e familiares.
“Câncer de colo do útero é um câncer de adultos jovens. Metade do total de mulheres diagnosticadas têm menos de 46 anos. São mulheres na pré-menopausa e férteis”, detalhou.
A Presidente de Honra da SBOC lembrou que o câncer do colo do útero é hoje uma das neoplasias mais passíveis de prevenção graças à vacinação contra o HPV e aos programas de rastreamento. “A ciência já disponibiliza ferramentas eficazes, mas o desafio permanece em garantir sua ampla utilização pela população”, comentou.
Ao abordar os obstáculos para alcançar esse objetivo, Dra. Angélica enfatizou as taxas ainda insuficientes de cobertura vacinal no Brasil e defendeu a retomada de estratégias capazes de ampliar o alcance da imunização entre crianças e adolescentes.
“A cobertura vacinal é crítica no Brasil. Hoje, está em cerca de 70% a 75% entre as meninas, e a nos meninos, em torno de 50%. Temos estudos que mostram que isso não nos permitirá alcançar a eliminação da doença nas próximas décadas”, explicou.
A oncologista também lembrou o sucesso obtido no início da implementação da vacina no país e apontou o ambiente escolar como um espaço fundamental para ampliar a proteção da população.
“Em 2014, quando houve a implementação dessa vacina no calendário, a cobertura foi superior a 90%. Ela foi feita nas escolas. As crianças de 9 a 14 anos não vão mais aos postos de saúde”, argumentou. “Os programas de maior sucesso no mundo, como os da Austrália e do Reino Unido, acontecem nas escolas. O retorno da vacinação nesse ambiente é crucial e pode mudar o panorama do câncer no Brasil”, completou a oncologista.
Panorama atual e inovação
Além de discutir prevenção e diagnóstico precoce, o evento reservou espaço para debates sobre o impacto das novas tecnologias no tratamento oncológico. Nesse contexto, o Prof. Dr. Paulo M. Hoff, Professor Titular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e ex-Presidente da SBOC (2021/22), foi o responsável pela palestra de abertura do encontro.
Ao apresentar um panorama das transformações em curso na oncologia, Dr. Hoff destacou o avanço acelerado de tecnologias que prometem mudar o prognóstico de diversos tumores nos próximos anos. Entre os destaques citados pelo oncologista estão as vacinas personalizadas de mRNA, a inteligência artificial aplicada ao cuidado dos pacientes, a biópsia líquida, novas gerações de imunoterapias, anticorpos droga-conjugados, terapias celulares CAR-T e radioligantes.
O painel dedicado às terapias inovadoras contou ainda com a participação do CEO da Oncoclínicas, ex-coordenador de Pesquisa Clínica do Instituto Nacional de Câncer (INCA) e ex-Presidente da SBOC (2023), Carlos Gil Ferreira, e do líder do Centro de Referência de Tumores de Pulmão e Tórax do A.C.Camargo Cancer Center e diretor da SBOC, Dr. Helano Freitas, que abordaram como os avanços vêm transformando a prática clínica e a experiência dos pacientes.
Segundo Dr. Carlos Gil, a compreensão cada vez mais detalhada dos mecanismos biológicos do câncer abriu caminho para tratamentos mais personalizados e eficazes. “A partir do momento em que alguns governos investiram muito em conhecimento de biologia molecular e celular do câncer, fomos capazes de desenvolver estratégias diferentes, que conversam muito mais com a biologia dos tumores. E, a partir daí, você molda tratamentos específicos”, explicou.
Já Dr. Helano Freitas destacou que os benefícios dessas inovações vão além do desenvolvimento de novas terapias, refletindo diretamente na sobrevida e na qualidade de vida dos pacientes.
“As pessoas ainda encaram o câncer como uma doença que leva rapidamente à morte porque viram um parente falecer em poucos meses. Isso não é a realidade do que temos hoje. Existe um contingente muito grande de pessoas que vivem com câncer.”
O oncologista ressaltou que conceitos como remissão prolongada e controle da doença tornaram-se cada vez mais frequentes na prática clínica. “A palavra remissão entrou muito mais em uso. Há pessoas que fazem tratamento por algum tempo, entram em remissão e permanecem assim por anos”, disse. “Existe também um grande contingente de pacientes que tomam medicamentos uma vez ao dia e vivem por muitos anos. Esse é o impacto que estamos vendo”, complementou.
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