
A Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) realizou nesta sexta-feira (22), em São Paulo, o 2º Workshop Diversidade na Oncologia, iniciativa que dá continuidade ao trabalho desenvolvido pela Diretoria e pelo Comitê de Diversidade da entidade para promover reflexões e ações voltadas à equidade, inclusão e representatividade no cuidado oncológico.
Durante a abertura do encontro, conduzida pela Dra. Ana Amélia, membro do Comitê de Diversidade e conselheira fiscal da Sociedade, representantes da SBOC destacaram a importância de incorporar a diversidade como um componente essencial para a qualidade do cuidado em saúde.
Ela iniciou o workshop com a frase da poetisa baiana Luciene Nascimento: “O lugar da consciência é um lugar de desassossego”. “Essa é uma frase que tem relação não apenas para nos atualizarmos nesse dia, mas para atualizarmos nossos entendimentos. Para que a gente atue nas nossas intenções, propósitos, para nos conectarmos e fortalecermos”, afirmou.
A Presidente da Sociedade, Dra. Clarissa Baldotto, ressaltou a importância do trabalho do Comitê e a relevância do Guia de Diversidade da SBOC, publicado no último ano após a primeira edição do Workshop. “No ano passado, foi a primeira vez que fui, de fato, educada sobre esses temas. A gente sabe que o ser humano busca medianas para facilitar sua vida, mas não queremos ter a vida facilitada se vamos dificultar a vida de outras pessoas”, refletiu.
Coordenadora do Comitê de Diversidade, Dra. Karla Maia, reforçou o objetivo de o Workshop funcionar como mais do que um dia de palestras. “Cada pessoa que está nesta sala foi convidada porque acreditamos no seu potencial de levar essa discussão para os seus serviços, hospitais e instituições. Queremos que o conhecimento construído aqui se transforme em ação concreta, capaz de reduzir barreiras, ampliar o acolhimento e contribuir para uma oncologia mais inclusiva e equitativa em diferentes realidades do país”, disse.
O efeito da multiplicação da informação foi mencionado na sequência, por Dra. Ana Amélia, que lembrou da participação do Presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), Dr. César Fernandes, no 1º Workshop de Diversidade. A partir de uma semente plantada naquelas discussões, a entidade nacional efetivou a criação da Comissão Nacional de Equidade, Diversidade e Inclusão da Associação Médica Brasileira (Conedi/AMB).
Membro da Comissão, Dr. Júlio César de Oliveira, reforçou que os dados discutidos ao longo do encontro podem causar desconforto por evidenciarem desigualdades que muitas vezes passam despercebidas no cotidiano. “Mas o mais importante não é o desconforto em si. O desafio é transformar essa percepção em mudanças concretas dentro dos serviços de saúde, criando estratégias que melhorem a experiência e os resultados dos pacientes”, defendeu.
Por fim, coordenadora-geral de Prevenção e Controle do Câncer do Ministério da Saúde, Dra. Paula Elaine Diniz dos Reis, reconheceu que ainda existem lacunas importantes de formação quando o assunto é diversidade. “Por isso, estar presente neste encontro é uma oportunidade valiosa para ouvir, aprender e estreitar o diálogo com especialistas e profissionais que atuam diretamente na assistência, contribuindo para que essa perspectiva esteja cada vez mais presente em políticas, protocolos e documentos técnicos”, comentou.
Diversidade como questão de saúde
Ao longo da manhã, especialistas convidados abordaram diferentes dimensões das desigualdades que impactam pacientes oncológicos e profissionais de saúde. Entre os temas discutidos estiveram a interseccionalidade e a saúde da população LGBTQIAPN+, o racismo estrutural como barreira ao cuidado, os desafios enfrentados por pacientes que vivem em regiões remotas e os papéis das instituições na redução das disparidades em saúde.
A ginecologista Dra. Patrícia Almeida abriu a programação científica com a palestra “Interseccionalidade e Saúde LGBTQIAPN+: Rompendo a invisibilidade no cuidado oncológico”. Ela lembrou que muitas vezes a diversidade é associada a um debate social, mas que ela tem impacto direto sobre indicadores de saúde.
“Se determinados grupos enfrentam mais barreiras para acessar serviços, realizar exames ou manter o acompanhamento médico, isso inevitavelmente afeta a prevenção, o diagnóstico precoce e os resultados do tratamento”, argumentou a médica, que atua no Ambulatório Estadual de Atenção à Saúde de Travestis e Transexuais e no Ambulatório para mulheres vivendo com HIV-AIDS.
Em seguida, a Dra. Abna Vieira, membro do Comitê de Diversidade da SBOC, discutiu “O racismo estrutural como barreira de fluxo: para além da biologia, como o racismo molda a priorização e a qualidade do cuidado recebido”. Ela reforçou que o combate às desigualdades raciais na oncologia precisa mais do que o reconhecimento do problema, mas ação e compromisso.
“O racismo não é apenas uma questão social. Ele produz impacto direto sobre a saúde das pessoas. Quando observamos diagnósticos mais tardios, menor acesso a tratamentos e piores taxas de sobrevida entre pacientes negros, estamos diante de um problema que a oncologia precisa enfrentar de forma aberta, baseada em evidências e comprometida com a equidade”, afirmou a oncologista.
Já a enfermeira e doutora em oncologia Dra. Edilene Duarte, que atua com populações ribeirinhas no Amazonas, apresentou reflexões sobre os chamados desertos oncológicos e os desafios geográficos enfrentados por pacientes que precisam percorrer longas distâncias para acessar tratamento especializado. Ela lembrou que nesse cenário a grande maioria dos pacientes precisa se deslocar para tratamento e o faz com recursos próprios, uma vez que as estruturas de apoio públicas não conseguem absorver toda a demanda.
Além disso, ela ressaltou a relevância de essa realidade ser compartilhada com a comunidade oncológica de todo o país. “Quando trazemos para espaços como este a realidade que vivemos na prática do SUS, conseguimos compartilhar desafios concretos e construir caminhos para melhorar a assistência. A troca de experiências entre diferentes regiões é fundamental para ampliar o acesso e qualificar o cuidado.”
O Dr. Fleury Johnson, fundador do Instituto Diversidade e Inclusão na Saúde (DIS), encerrou o bloco de palestras da manhã abordando estratégias institucionais para o fortalecimento de iniciativas de diversidade, equidade e inclusão. O especialista defendeu que a transformação cultural não acontece em apenas um dia de treinamento, mas por meio de um processo contínuo e baseado na construção de confiança e acompanhamento de resultados.
Além disso, ele lembrou que promover diversidade e inclusão dentro das instituições não é apenas uma questão de representatividade. “Quando as pessoas se sentem pertencentes aos ambientes onde trabalham e são atendidas, observamos melhorias no clima organizacional, maior engajamento das equipes, retenção de talentos e resultados que impactam diretamente a qualidade da assistência prestada aos pacientes”, argumentou.
Construção coletiva de soluções
Diferentemente de um modelo centrado apenas na exposição de conteúdos, a programação da tarde foi dedicada à construção colaborativa de propostas. Primeiro, a infectologista Dra. Mafê Medeiros foi convidada pelo membro do Comitê de Diversidade da SBOC, Dr. Jessé Lopes da Silva, a comentar um caso de uma paciente real: uma mulher trans de 55 anos diagnosticada com câncer de mama.
A partir dos debates da programação, a discussão buscou compreender como o diagnóstico e o tratamento do câncer podem impactar uma paciente trans. Dra. Mafê também compartilhou suas próprias experiências como mulher trans.
Depois, os participantes foram divididos em grupos de trabalho para discutir desafios concretos relacionados aos quatro temas apresentados durante a manhã e desenvolver estratégias que possam ser reproduzidas. Após a elaboração em conjunto, os participantes se reuniram para ouvir as propostas.
Dessa forma, o Workshop foi encerrado com a apresentação de um painel construído ao longo do dia, reunindo os principais aprendizados, reflexões e compromissos assumidos pelos participantes. Como atividade final, os profissionais foram convidados a identificar, uma ação concreta a ser implementada em seu contexto de atuação, reforçando o objetivo do encontro de transformar conhecimento em prática.
Endereço
Avenida Paulista, 2073, Edifício Horsa II – Conjunto Nacional Conj. 1003, São Paulo/SP, 01311-300
Telefone
+55 (11) 3192-9284