Título em inglês:
Atezolizumab plus FOLFOX for Stage III Mismatch Repair–Deficient Colon Cancer
Título em português:
Atezolizumabe associado ao FOLFOX no câncer de cólon estágio III com deficiência do sistema de reparo do DNA
Sinicrope FA, Ou FS, Arnold D, Peters WR, Behrens RJ, Lieu CH, et al. Atezolizumab plus FOLFOX for Stage III Mismatch Repair-Deficient Colon Cancer. N Engl J Med. 2026 Mar 26;394(12):1155-1166. doi: 10.1056/NEJMoa2507874.
Resumo do artigo:
O estudo ATOMIC, publicado no New England Journal of Medicine, em 2026, avaliou o papel da imunoterapia no cenário adjuvante do câncer de cólon estágio III com deficiência do sistema de reparo do DNA (dMMR), em uma população sensível ao bloqueio de checkpoint imunológico.
Tradicionalmente, o tratamento padrão desses pacientes consiste em ressecção cirúrgica seguida de quimioterapia adjuvante baseada em fluoropirimidinas e oxaliplatina (mFOLFOX ou CAPOX), estratégia que reduz o risco de recorrência, mas ainda assim com taxas de recidiva em torno de 30%.
Neste ensaio clínico de fase 3, randomizado e internacional, 712 pacientes com câncer de cólon estágio III e dMMR submetidos ao tratamento cirúrgico foram alocados para receber mFOLFOX6 isolado por 6 meses ou mFOLFOX6 associado ao atezolizumabe por 6 meses, seguido de manutenção com atezolizumabe até completar 1 ano de tratamento. O desfecho primário foi a sobrevida livre de doença (SLD), com análise por intenção de tratar. A população incluída apresentava características de risco relevantes, com mais da metade dos pacientes classificados como alto risco (T4 e/ou N2), e adequada representatividade clínica, incluindo pacientes com Síndrome de Lynch.
Após um seguimento mediano de aproximadamente 41 meses, o estudo demonstrou benefício estatisticamente significativo e clinicamente relevante na SLD, com a adição de atezolizumabe. A taxa de SLD em 3 anos foi de 86,3% no grupo combinado, comparada a 76,2% no grupo tratado apenas com quimioterapia, o que corresponde a uma redução de 50% no risco de recorrência ou morte (hazard ratio 0,50; p<0,001). Esse benefício foi consistente em análises de subgrupos e mantido em análises por protocolo, e em pacientes com confirmação central de dMMR. Observou-se, entretanto, que o benefício pareceu mais pronunciado em pacientes que receberam maior exposição à quimioterapia (mais de 6 ciclos de mFOLFOX6), sugerindo possível interação entre quimioterapia e imunoterapia no contexto adjuvante.
Em relação à sobrevida global, os dados ainda são imaturos. Com mediana de seguimento de aproximadamente 46 meses, não houve diferença significativa entre os grupos, com taxas de sobrevida global em 5 anos de 89,7% no grupo experimental e 87,9% no grupo controle. Esse resultado pode refletir o uso subsequente de imunoterapia no cenário metastático, especialmente entre pacientes inicialmente tratados apenas com quimioterapia, o que pode atenuar diferenças entre os braços ao longo do tempo.
O perfil de segurança foi consistente com os efeitos conhecidos das terapias utilizadas. Eventos adversos de grau 3 ou 4 foram mais frequentes no grupo que recebeu atezolizumabe (84,1% versus 71,9%), com aumento principalmente de toxicidades não hematológicas e eventos imunomediados como: hipotireoidismo, hiperglicemia e colite. A maior duração do tratamento no grupo intervenção explica os efeitos tóxicos, principalmente a fadiga.
Comentário da avaliadora científica:
O uso de inibidores de checkpoint imunológico está consolidado na doença colorretal metastática com dMMR e vem se mostrando promissor na doença localizada. No câncer de reto, a imunoterapia neoadjuvante leva a respostas patológicas completas. O estudo fase 2 NICHE-II mostrou altas taxas de resposta patológica completa em pacientes com câncer de cólon dMMR estádio II ou III.
O ATOMIC representa um avanço significativo no tratamento adjuvante do câncer de cólon dMMR estágio III, estabelecendo a combinação de quimioterapia com imunoterapia como uma estratégia eficaz para redução do risco de recorrência. Apesar do impacto positivo na SLD, o seguimento mais prolongado será essencial para confirmar benefício em sobrevida global. No entanto, os resultados deste estudo já foram incorporados às diretrizes mais recentes da NCCN.
Por fim, os resultados reforçam a importância da testagem universal do status de MMR no diagnóstico do câncer de cólon, tanto para identificação de síndrome de Lynch quanto para definição da melhor terapêutica.
Avaliadora científica:
Dra. Karina Agrizzi Verediano
Oncologista clínica pelo Instituto Nacional do Câncer – INCA
Oncologista na Oncologia D’Or e Hospital Universitário Pedro Ernesto e Pesquisa Clínica IDOR
Instagram: @karinaagrizzi
Cidade de atuação: Rio de Janeiro/RJ
Análise realizada em colaboração com a oncologista sênior Dra. Maria de Lourdes Lopes de Oliveira.
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