Título em inglês:
Neoadjuvant Taxane Plus Trastuzumab and Pertuzumab With or Without Carboplatin in Human Epidermal Growth Factor Receptor 2–Positive Breast Cancer: The Randomized Noninferiority Phase III neoCARHP Trial
Título em português:
Neoadjuvância com Taxano associado a trastuzumabe e pertuzumabe com ou sem carboplatina no câncer de mama HER2-positivo: estudo de fase III randomizado de não inferioridade neoCARHP
Citação:
Gao HF, Ye GL, Lin Y, Huang Q, Dong J, Cao Y, et al. Neoadjuvant Taxane Plus Trastuzumab and Pertuzumab With or Without Carboplatin in Human Epidermal Growth Factor Receptor 2-Positive Breast Cancer: The Randomized Noninferiority Phase III neoCARHP Trial. J Clin Oncol. 2026 Jan 23:JCO2502176. doi: 10.1200/JCO-25-02176.
Resumo do artigo:
O estudo neoCARHP avaliou a possibilidade de desescalonamento da quimioterapia neoadjuvante em câncer de mama HER2-positivo, questionando a real necessidade da adição de carboplatina ao backbone com taxano associado ao duplo bloqueio anti-HER2.
Trata-se de um ensaio clínico de fase III, multicêntrico, randomizado, aberto, de não inferioridade, que incluiu pacientes com câncer de mama invasivo HER2-positivo estádios II e III, sem tratamento prévio. Foram excluídas pacientes com câncer de mama inflamatório e doença bilateral.
As pacientes foram randomizadas (1:1) para dois braços: TCbHP (taxano + carboplatina + trastuzumabe + pertuzumabe) versus THP (taxano + trastuzumabe + pertuzumabe, sem carboplatina), administrados por 6 ciclos a cada 3 semanas. O desfecho primário foi taxa de resposta patológica completa (pCR: ypT0/is ypN0). O taxano mais utilizado foi nab-paclitaxel (44,5% em cada braço), seguido por docetaxel (em torno de 36% em cada braço) e paclitaxel (em torno de 19% em cada braço), todos em regime a cada 3 semanas.
Foram randomizadas 774 pacientes. A população apresentava perfil predominantemente de menor risco relativo dentro do cenário neoadjuvante: cerca de 80% tinham tumores T1–T2 (81,4% no THP e 78,6% no TCbHP) e apenas aproximadamente 20% eram T3–T4. Estádio II foi predominante (77,0% no THP vs 71,6% no TCbHP), enquanto estádio III foi representado por menos de 30% dos casos (23% no THP e 28,4% no TCbHP). A maioria apresentava doença com linfonodos positivos (64%). O recrutamento ocorreu entre abril de 2021 e agosto de 2024, em 15 centros na China. Vale notar que a dose de docetaxel diferiu entre os braços — 75 mg/m² no TCbHP versus 100 mg/m² no THP —, o que pode influenciar a comparação de eficácia e tolerabilidade. Quanto ao status hormonal, em torno de 63% eram RH positivos e cerca de 37% RH negativos.
No desfecho primário, o regime THP demonstrou não inferioridade em relação ao TCbHP: pCR de 64,1% versus 65,9% (diferença absoluta –1,8%; IC 95% –8,5 a 5,0; p para não inferioridade = 0,0089). Esse resultado foi consistente na análise por protocolo (pCR idêntica de 68,5% em ambos os grupos) e em subgrupos clínicos relevantes, incluindo estratificação por status hormonal. Em tumores RH negativos, as taxas de pCR foram elevadas e semelhantes (78,2% vs 77,8%), enquanto em RH positivos permaneceram mais baixas, porém comparáveis (55,8% vs 58,8%).
Entre os desfechos secundários já reportados, observou-se alta taxa de conclusão do tratamento em ambos os braços (>94%), mas com menor necessidade de redução de dose no grupo sem carboplatina (8,1% vs 25,3%). Em termos de segurança, houve clara vantagem do esquema sem carboplatina: o grupo THP apresentou menor incidência de eventos adversos grau ≥3 (20,7% vs 34,6%) e menor taxa de eventos adversos graves (1,3% vs 4,7%). Destaca-se redução significativa de toxicidades hematológicas, particularmente neutropenia grau ≥3 (6,9% vs 16,4%).
Em síntese, o estudo demonstra que a omissão da carboplatina no cenário neoadjuvante para câncer de mama HER2-positivo mantém eficácia em termos de pCR, com relevante redução de toxicidade, apoiando estratégias de descalonamento em populações selecionadas.
Comentário do avaliador científico:
O estudo neoCARHP reforça a crescente evidência de descalonamento no tratamento neoadjuvante do câncer de mama HER2-positivo. Em uma população predominantemente de menor risco — com alta proporção de tumores T1-T2 e estádio II – a omissão da carboplatina não comprometeu as taxas de pCR, em linha com achados prévios de estudos como NeoSphere, WSG-ADAPT, DAPHNe e COMPASS-HER2-pCR, que já sugeriam a possibilidade de regimes menos intensivos em cenários selecionados. No entanto, deve-se ter cautela ao extrapolar esses resultados para pacientes com doença mais avançada, particularmente aqueles com maior carga tumoral (T3-T4, estádio III, carcinoma inflamatório).
Além disso, algumas limitações merecem destaque: o estudo foi conduzido exclusivamente em população chinesa, o que pode restringir a generalização dos achados para populações com diferentes perfis genéticos. Outro ponto relevante é o uso frequente de nab-paclitaxel em regime a cada três semanas, estratégia não habitual na prática clínica em muitos países. Por fim, os dados de sobrevida livre de eventos ainda não foram reportados e serão fundamentais para confirmar se a não inferioridade em pCR se traduz em benefício clínico duradouro com o regime THP. Enquanto isso, o THP pode ser considerado uma alternativa razoável para pacientes com doença em estádio II e baixa carga tumoral.
Avaliador científico:
Dr. Maximiliano William de Souza Guedes
Oncologista clínico pela Beneficência Portuguesa de São Paulo
Oncologista clínico com ênfase em câncer de mama e em oncoginecologia na Beneficência Portuguesa de São Paulo
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