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Elas são enfermeiras e coordenadoras apaixonadas por pesquisa clínica

Notícias Quarta, 28 Março 2018 22:38
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Liderança, raciocínio estratégico, capacidade administrativa, conhecimento clínico, assistencial, científico e empatia. Esse é o perfil comum das enfermeiras que coordenam estudos clínicos ouvidas pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC). Uma delas, Carolina Salema, do Instituto do Câncer de São Paulo (Icesp), trabalhou durante cinco anos no ambulatório de quimioterapia até participar de uma seleção interna para integrar a pesquisa clínica, onde já está há cinco anos também. Já Denise Regina Hilger, do Centro de Pesquisa Clínica em Oncologia do Hospital de Caridade de Ijuí (RS), e Cecilia Ferreira da Silva, do Instituto Nacional de Câncer (Inca), entraram na área logo depois de formadas. Todas se dizem complemente apaixonadas pelo que fazem.

O volume de trabalho é enorme. No Icesp, 300 estudos em andamento. No Inca, 120 e outros 30 para serem iniciados. Na pequena Ijuí, que se tornou uma gigante em pesquisa clínica, 150 protocolos abertos. As funções delas variam, conforme a estrutura e as características de cada serviço. Carolina, por exemplo, enfatiza o contato imediato com o paciente para que a identificação precoce de cada sinal de toxicidade permita o manejo mais adequado e evite piora do quadro clínico. Ela também ressalta a oportunidade de desenvolver o raciocínio clínico em equipe ao longo do estudo como um dos atributos da função.

Denise, coordenadora-gerente do Hospital de Caridade de Ijuí, lembra que a área requer aperfeiçoamento contínuo e trabalho em equipe multidisciplinar, com vínculo de vários profissionais de saúde envolvidos diretamente nos estudos clínicos, os próprios pacientes, agentes de órgãos regulatórios, monitores de pesquisa clínica, profissionais associados às indústrias farmacêuticas, pessoal do transporte de material biológico, entre outros serviços contratados. Uma grande cadeia. “Precisamos trabalhar unidos para tudo funcionar”, afirma. “Internamente, temos reunião uma vez por semana para discutir melhorias, revisar a agenda dos pacientes e comentar o que há de novo.”

Cecilia tem uma atribuição específica no Inca: é gerente de qualidade de processos dentro da pesquisa clínica desde 2016. A área foi criada quatro anos antes para detalhar ainda mais o controle sobre cada etapa dos estudos. “O trabalho de coordenação é bastante intenso: volume grande de atividades e a engrenagem tem que funcionar.”

Construindo argumentos

O papel de inclusivo da pesquisa clínica é destacado por todas elas. Dar oportunidade para que os pacientes sejam tratados com drogas inovadoras, muitas com grande potencial de benefício, é um alento no cuidado oncológico. Ainda mais diante de tantas dificuldades de acesso aos tratamentos como se vê no Brasil. “O mais significativo na pesquisa é poder oferecer para os pacientes a mesma medicação de ponta que está sendo dada nos Estados Unidos, Japão, Alemanha. Se não fosse pela pesquisa, esses pacientes nunca teriam acesso”, diz Denise. “É gratificante também trabalhar com uma medicação antes de ser aprovada e depois vê-la disponível no mercado; saber que você fez parte disso”, conta.

Por outro lado, a lentidão na incorporação das drogas ao sistema público de saúde angustia quem conhece os benefícios tão de perto. “Este é um ponto nevrálgico. É muito doído saber que existe aquele medicamento mas muitos pacientes que precisam não têm acesso”, frisa Carolina. “Minha forma de lidar é saber que, onde estou, farei o meu melhor. Vou ajudar a construir um bom argumento, com os dados do estudo, para apresentar aos gestores.”

A burocracia é outro entrave. Apesar de avanços recentes na tramitação dos processos regulatórios, como frisa Cecilia, o tempo de aprovação dos protocolos ainda é lento em comparação a outros países e truncado entre as diversas instâncias. “Em todo o mundo, o processo é acelerado, competitivo. Quando o estudo atinge o número esperado de pacientes em outros centros, o recrutamento de novos pacientes é encerrado”, explica Denise. “O estudo fica parado aguardando as diversas aprovações. Os pacientes pré-selecionados pioram e não podem mais participar. Acontece com alguma frequência”, relata Carolina. Em Ijuí, houve casos em que a demora foi tanta que a equipe teve três dias para recrutar pacientes em um determinado protocolo.

A responsabilidade no registro dos dados do estudo é outro aspecto salientado pelas três entrevistadas. “Cuidamos para que as datas não saiam da janela, não haja viés no registro das informações. Tudo tem que ser muito fidedigno, preciso e ético. Afinal, os resultados podem mudar o padrão de um tratamento”, define Carolina. “A cada novo protocolo, você precisa se atualizar, estudar”, lembra Denise. “A pesquisa clínica tem processos extremamente qualificados; é um desafio contínuo”, resume Cecilia.

Mais sobre elas

Cecilia é de Goiânia, onde fez graduação e se interessou pela especialidade durante um projeto de iniciação científica sobre controle de infecção hospitalar. A então estudante de enfermagem teve contato com o Hospital Araújo Jorge, referência estadual no atendimento de pacientes com câncer, e adentrou no mundo da oncologia. Foi para o Rio fazer residência, seguida de um curso de especialização em pesquisa clínica durante seis meses. Sua dedicação como aluna a fez ser convidada para integrar a estrutura. Hoje, nove anos passados, é servidora pública no Inca e pretende continuar lá. “Carioquei”, brinca.

Denise fez faculdade de enfermagem em Porto Alegre, onde trabalhou com pesquisa clínica por dois anos antes de ir para Ijuí. O que a atraiu para a pequena cidade foi a fama do centro de pesquisa – o Hospital de Caridade de Ijuí participava de cada vez mais estudos clínicos – e questões pessoais. Sua cidade natal é Três Passos, a 120 quilômetros dali. O adoecimento do pai a fez querer ficar mais perto da família. Ela chegou em 2009, três anos depois do primeiro protocolo ser aberto. E lá se vai quase uma década. “Nosso centro acabou se expandindo e é conhecido por todos, não só no Brasil mas mundo afora”, orgulha-se.

Carolina é de São Paulo mesmo, graduada e licenciada pela USP e pós-graduada em Oncologia pelo AC Camargo Cancer Center. Ela está se envolvendo cada vez mais com a área educacional, treinamentos e divulgação de informação de qualidade, inclusive sobre pesquisa clínica, em um projeto pessoal. “Aos poucos a enfermagem está perdendo a conotação de anjo, de caridade. Somos profissionais que estudamos muito para fazer o que fazemos e aprender sempre mais. Temos que ter essa postura”, finaliza.

Última modificação em Quarta, 28 Março 2018 22:45

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