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Onde as estradas são de água

Notícias Quarta, 28 Novembro 2018 18:08
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A realidade pouco conhecida da Oncologia Clínica em Manaus e como a nova geração está tentando modificá-la

Pacientes que moram a sete dias de barco, chegam com tumores avançados e não raro desistem do tratamento. Este é o retrato do dia a dia do atendimento oncológico em Manaus. Mas os médicos de lá não desistem. Oferecem o que há disponível e têm se organizado para fazer mais. As medidas já adotadas são até simples. Constituir um local específico para a Oncologia, tornar-se um departamento exclusivo, ter uma secretária em tempo integral, uma equipe de enfermagem treinada, uma sala de reuniões. “Antes cada setor vinha funcionando de forma fragmentada com pouca comunicação entre as especialidades médicas; e na Oncologia não pode ser assim”, diz a Dra. Poliana Albuquerque Signorini, referindo-se ao aspecto multidisciplinar e multiprofissional da especialidade. Ela está entre os oito oncologistas clínicos da Fundação Centro de Controle em Oncologia (FCECON), o único serviço público do Amazonas a tratar pessoas com câncer.

Alguns dos oito são antigos de casa – mais de duas décadas trabalhando ali. Outros são jovens que ingressaram no hospital via concurso público em 2015. Juntos, atendem uma população de 2,5 milhões. Além do Estado inteiro, há pacientes do sul do Pará, Acre, Roraima e até mesmo venezuelanos e haitianos imigrantes. A carga de trabalho é desgastante: o setor realiza de 1,8 mil a 2 mil consultas médicas todo mês.

Nenhum dos jovens formou-se na especialidade em Manaus. Existe um Programa de Residência Médica em Oncologia Clínica ligado à FCECON, mas há três anos sequer tem candidatos. Poliana, por exemplo, é manauara, fez medicina na Universidade Federal do Amazonas, Clínica Médica na Fundação Hospital Adriano Jorge, também na capital, e Oncologia Clínica no Instituto Nacional de Câncer (INCA), no Rio de Janeiro. “Foram 11 anos de formação no SUS; decidi voltar e tentar retribuir para o meu povo o que eu aprendi”, conta.

A Dra. Gilmara Resende, também de Manaus, tem trajetória e motivação semelhantes, com a diferença de que fez a residência no Hospital de Câncer de Barretos, em São Paulo. “Optei por conhecer instituições mais bem estruturadas e avançadas, mas sempre tive vontade de retornar e mudar, para melhor, a realidade local”, afirma. “Até hoje ouço de colegas médicos que ‘o paciente fulano tem câncer avançado; vai morrer em poucos dias’. Eles são completamente incrédulos quando digo que tenho pacientes metastáticos com sobrevida de anos”, ressalta.

Muitas vezes a descrença dos pacientes também é enorme, conta a Dra. Poliana. As estradas são de água. As viagens de barco ou de lancha a jato precisam ser custeadas pelas prefeituras, o que nem sempre se consegue. As medicações contra o câncer disponíveis são basicamente as restritas ao SUS. As casas de apoio e ONGs ajudam quem não tem condições de se manter na cidade por conta própria durante o tratamento, mas as consultas, exames, sessões de quimioterapia e acompanhamento têm intervalos muito curtos entre si e, no total, é tempo demais para ficar longe de casa, na visão de boa parte deles. “Alguns pacientes me perguntam se a doença tem cura. Quando a resposta é não, por mais que expliquemos que vale a pena se tratar para ter mais qualidade e expectativa de vida, não raro há desistências”, revela a médica.

Diagnóstico tardio é quase regra. Amazonas é um dos Estados brasileiros campeões de casos de câncer de colo uterino, característica de locais com baixo acesso aos sistemas de saúde. “O início da atividade sexual é muito precoce; as pessoas não usam preservativo, não se vacinam contra o HPV”, descreve Poliana. “Quando surgem os sintomas, mulheres muito jovens enfrentam má triagem, mau diagnóstico e chegam ao oncologista com o tumor bem avançado. Aí vêm os outros gargalos, principalmente na radioterapia, como em todo o Brasil.”

A ex-residente do INCA conta que o comprometimento dos oncologistas que atuam na FCECON há mais tempo fez com que o governo estadual passasse a financiar o custeio de alguns medicamentos contra o câncer. “Embora ainda não consigamos oferecer imunoterapia, estamos melhor que outros Estados, segundo relatos de colegas”, pontua. “Mas você se deparar diariamente com casos de tumor bem avançado, em uma doença prevenível, é muito triste”, continua Poliana. “Tenho alguns anticorpos monoclonais de alto custo, mas não consigo oferecer o diagnóstico precoce”, indignase. “Investimos em droga, mas precisaríamos de tratamento precoce e maior chance de cura.”

Subnotificação

Um dos caminhos que os oncologistas de Manaus já começaram a percorrer na tentativa de transformar essa realidade é o registro e a organização dos dados epidemiológicos dos pacientes com câncer atendidos no serviço. “Quando vejo dados publicados mostrando poucos números no Amazonas, fico incomodada por saber que aqueles dados não refletem a minha realidade”, conta Poliana. A oncologista acredita que os pacientes da região amazônica têm características próprias em relação ao câncer e que conhecê-las poderá direcionar de forma mais correta as políticas públicas.

“Atendi mais pacientes com câncer de estômago em um ano aqui do que nos três anos de residência no INCA”, relata. “Tenho a impressão de que é uma neoplasia mais prevalente do que no resto do Brasil, mas temos que coletar dados, analisar e publicar.” Por meio de um projeto de iniciação científica em curso no setor estão sendo levantadas as informações. “Já é uma porta saber o que tem e do que precisa para definir como buscar melhorias, ainda mais em uma especialidade como a oncologia, que vive de evidências”, disserta a médica. “Este é um primeiro ponto: começar a nos fazer enxergar dentro do país.”

“Vamos deixar com a nossa cara”

Quando chegaram ao FCECON e se depararam com aquela demanda imensa de pacientes de altíssima complexidade e os mais variados tipos de tumores, apenas um aparelho de cobalto na radioterapia, sem ressonância magnética na unidade, uma fila interminável para biópsias na patologia e a não realização de imunohistoquímica na cidade, elas compreenderam por que a maioria dos colegas de especialidade opta por atuar em centros mais estruturados. “É normal questionar ‘me preparei tanto para não conseguir fazer nada?’ e decidir não vir para cá”, entende a Dra. Poliana.

Mas ela e seus colegas que formam agora a nova geração de oncologistas da FCECON decidiram ser pontos fora da curva. O sentimento dos recém-empossados no concurso público foi “isso aqui é a minha casa; tenho que organizar”. Eles começaram a trocar ideias de melhorias e, juntos, estimulando um ao outro, sentenciaram: “Vamos deixar o serviço com a nossa cara; tentar fazê-lo crescer de acordo com o que aprendemos.”

A oncologia da FCECON não era organizada como um serviço. Com as mudanças promovidas por eles, agora as pessoas sabem onde encontrar o oncologista; a equipe está engajada e contente com os novos processos. “Nosso fluxo melhorou absurdamente”, comemora a ex-residente do INCA. As novidades também estão sendo vistas com bons olhos pela direção do hospital.

Outras notícias positivas foram chegando, de acordo com a Dra. Gilmara Resende, ex-residente do Hospital de Câncer de Barretos. Mais dois oncologistas concursados e também médicos de outras especialidades puderam assumir suas vagas. “Torná-lo um grande centro não é impossível; se conseguirmos melhorias, aí sim começaremos a atrair residentes e mais oncologistas”, acredita Poliana. “O sonho é grande, mas vai para a frente.”

Criar um centro de Pesquisa Clínica em Oncologia, que seria o primeiro da região norte do país, é também uma meta “para atender essa população tão carente de recursos em saúde e de atenção do poder público”, nas palavras da Dra. Gilmara. Ela, inclusive, foi uma das selecionadas pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) para o Programa de Capacitação em Pesquisa Clínica, realizado em agosto na cidade de Ijuí (RS).

“Na pesquisa clínica, oferecemos tratamentos de ponta com possibilidade de uso de drogas inovadoras, reduzindo custos ao sistema de saúde”, destaca Gilmara. “Também estimula a modernização de todo uma estrutura envolvida na tentativa de equiparação a padrões de assistência e atendimento internacionais, além de proporcionar melhor conhecimento técnico-científico para a equipe multidisciplinar envolvida.”

Apesar da rotina extenuante, as doutoras são superotimistas. “Somos novas ainda e temos energia para tentar fazer algo bom pelo nosso povo; é uma experiência que não teríamos em um lugar onde tudo estivesse pronto”, avalia Poliana. “Se a gente, que é daqui, não buscar as melhorias, não teremos”, constata Gilmara. “No meio do caminho, você encontra os seus parceiros que lhe ajudam, seguimos a mesma linha de raciocínio oncológico e isso dá um gás na nossa motivação”, continua. “O país precisa melhorar muito; temos inúmeros obstáculos a vencer, mas eu pessoalmente me sinto realizada de fazer o que eu gosto.”

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