SBOC Review

POD1UM-303: ganho de sobrevida global com anti-PD-1 em canal anal avançado

Título em inglês:

Survival outcomes in POD1UM-303/InterAACT-2: a phase III study of retifanlimab plus carboplatin-paclitaxel in first-line advanced squamous anal cancer

Título em português:

Resultados de sobrevida do POD1UM-303/InterAACT-2: um estudo de fase III de retifanlimabe mais carboplatina-paclitaxel no tratamento de primeira linha do carcinoma de células escamosas do canal anal avançado

Citação:

Rao S, Samalin-Scalzi E, Evesque L, Ben Abdelghani M, Morano F, Roy A, et al. Survival outcomes in POD1UM-303/InterAACT-2: a phase III study of retifanlimab plus carboplatin-paclitaxel in first-line advanced squamous anal cancer. Ann Oncol. 2026 Aug;37(8):1157-1166. doi: 10.1016/j.annonc.2026.04.016.

Resumo do artigo:

O câncer do canal anal é raro, compreendendo 2% dos tumores do trato digestivo, e sua incidência está em ascensão. O carcinoma de células escamosas do canal anal é o tipo mais frequente, representando 85% a 95% dos casos.

Trata-se de uma doença órfã e negligenciada, com poucos avanços terapêuticos nas últimas décadas. O InterAACT, estudo de fase II randomizado, estabeleceu carboplatina e paclitaxel como opção preferencial de primeira linha, com sobrevida livre de progressão mediana de 8 meses e sobrevida global mediana de 20 meses (Rao, J Clin Oncol, 2020).

O POD1UM-303/InterAACT-2 foi um ensaio clínico de fase III, randomizado, duplo-cego, controlado e multicêntrico, cujo objetivo foi avaliar o papel de retifanlimabe, um anticorpo monoclonal anti-PD-1, em adição à quimioterapia padrão em primeira linha. Foram elegíveis adultos com carcinoma escamoso de canal anal inoperável, localmente recorrente ou metastático, sem tratamento sistêmico prévio, com ECOG 0-1 e, entre os portadores de HIV, com infecção bem controlada. O desfecho primário do estudo foi sobrevida livre de progressão (SLP), e os desfechos secundários foram sobrevida global (SG), taxa de resposta, duração de resposta e segurança.

Foram randomizados 308 pacientes para dois grupos: um grupo (n = 154) recebeu retifanlimabe 500 mg a cada 28 dias associado a carboplatina AUC 5 a cada 28 dias e paclitaxel semanal (D1, D8 e D15, a cada 28 dias) por 6 meses, seguido de retifanlimabe em monoterapia por mais 6 meses; o outro grupo (n = 154) recebeu o mesmo esquema com placebo. Pacientes do braço placebo com progressão confirmada podiam cruzar para retifanlimabe em monoterapia. As características basais da população foram publicadas na análise primária (Rao, Lancet, 2025).

Com data de corte em 1º de agosto de 2025, o seguimento mediano foi de 26,3 meses no grupo retifanlimabe e 20,6 meses no grupo placebo. Os resultados evidenciam melhora expressiva na SLP no grupo que recebeu retifanlimabe, com SLP mediana de 9,3 meses versus 7,4 meses no grupo quimioterapia isolada (HR 0,62; IC 95% 0,47-0,81; p = 0,0002), indicando uma redução de 38% no risco de progressão da doença ou morte. A análise final de SG demonstrou um avanço consistente e clinicamente significativo com retifanlimabe associado a quimioterapia em comparação à quimioterapia isolada. A sobrevida mediana foi de 32,8 meses versus 22,2 meses (HR 0,75; IC 95% 0,55-1,01; p = 0,0305), com as duas curvas se separando aproximadamente a partir de 6 meses e mantendo-se assim até o final do acompanhamento. Do braço placebo, 77 pacientes com progressão confirmada cruzaram para retifanlimabe (50%); as análises ajustadas para o crossover foram concordantes com a análise principal.

Na análise exploratória de subgrupos pré-planejada, houve um benefício consistente de SG a favor do retifanlimabe mais carboplatina e paclitaxel em todos os subgrupos predefinidos com número de pacientes suficiente para a comparação. A taxa de resposta objetiva foi de 56,5% com retifanlimabe mais quimioterapia versus 44,8% com quimioterapia isolada, e a taxa de controle de doença foi de 87,7% versus 80,5%. Respostas completas também foram mais frequentes com retifanlimabe (24,7% versus 13,6%).

O esquema combinado de retifanlimabe com quimioterapia foi considerado bem tolerado, sendo os eventos adversos mais frequentes em ambos os grupos, anemia, náusea, alopecia, diarreia, astenia e neutropenia. Hipotireoidismo (14,3% vs 3,9%) e hipertireoidismo (7,8% vs 1,3%) foram mais frequentes no grupo retifanlimabe. O perfil de toxicidade foi o esperado para a adição de um anti-PD-1 à quimioterapia, sem novos sinais de segurança com o seguimento mais longo.

Como limitação, os autores destacam que a SG era desfecho secundário, com poder estatístico de aproximadamente 70%, refletindo a dificuldade de recrutar pacientes em número suficiente em um tumor raro.

Avaliador científico:

Dr. Marcio Bomfim Reis

Especialista em Oncologia Clínica pela Santa Casa de Campo Grande/MS

Oncologista assistente na Clínica Oncovitta e na Santa Casa de Rondonópolis/MT

Professor do curso de Medicina da Universidade Federal de Rondonópolis (UFR)

Instagram: @drmarciobomfim

Cidade de atuação: Rondonópolis/MT

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Editor
Dr. Ricardo Dahmer
Médico oncologista pelo Icesp. Saiba mais.
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