Título em inglês:
On-treatment serum prostate-specific antigen and overall survival in prostate cancer (STAMPEDE platform protocol): a post-hoc analysis of data from five phase 3 trials
Título em português:
PSA sérico durante o tratamento e sobrevida global no câncer de próstata (protocolo STAMPEDE): uma análise pós-hoc de dados de cinco estudos fase 3
Citação:
Kayani M, Murphy L, Dutey-Magni P, Howlett S, Sachdeva A, Padden-Modi M, et al. STAMPEDE Collaborators; On-treatment serum prostate-specific antigen and overall survival in prostate cancer (STAMPEDE platform protocol): a post-hoc analysis of data from five phase 3 trials. Lancet Oncol. 2026 May;27(5):625-636. doi: 10.1016/S1470-2045(26)00066-5.
Resumo do artigo:
O estudo STAMPEDE é uma plataforma multicêntrica e adaptativa de estudos clínicos em câncer de próstata que avaliou diferentes estratégias terapêuticas associadas à terapia de privação androgênica (ADT) em pacientes com doença metastática (mCSPC) ou não metastática de muito alto risco. Nesta análise pós-hoc, os autores investigaram o PSA durante o tratamento como biomarcador prognóstico de sobrevida global (SG), avaliando seus níveis em 6, 12 e 24 semanas após a randomização.
Foram incluídos 7.129 pacientes recrutados entre 2005 e 2016 em cinco estudos randomizados fase III do protocolo STAMPEDE, conduzidos em 126 centros do Reino Unido e Suíça. Desses, 4.438 apresentavam doença metastática e 2.691 doença não metastática de muito alto risco. Entre os pacientes metastáticos avaliáveis, 55,9% tinham doença de alto volume pelos critérios CHAARTED e, entre os não metastáticos, 38,4% eram linfonodo-positivos.
Os participantes receberam ADT isolada ou associada ao docetaxel, podendo também receber tratamentos experimentais, como abiraterona ± enzalutamida, docetaxel ± ácido zoledrônico e radioterapia prostática nos casos metastáticos. O objetivo principal foi correlacionar os valores de PSA durante o tratamento com a SG em diferentes tempos de avaliação. Os pacientes foram estratificados conforme volume metastático ou status linfonodal.
Os níveis de PSA foram categorizados em quatro grupos: ≤0,2 ng/mL; >0,2 a 1,0 ng/mL; >1,0 a 3,0 ng/mL; e >3,0 ng/mL. PSA ≤0,2 ng/mL esteve consistentemente associado a melhores desfechos de SG em todos os tempos analisados. Esse nadir foi menos frequente em 6 e 12 semanas comparado a 24 semanas, porém pacientes com resposta precoce apresentaram sobrevida semelhante aos que atingiram esse patamar mais tardiamente.
O PSA em 24 semanas apresentou a associação prognóstica mais forte com SG. Entretanto, o impacto prognóstico variou conforme o volume metastático e o status nodal. Entre pacientes tratados com abiraterona ± enzalutamida e PSA ≤0,2 ng/mL em 24 semanas, a SG em 96 meses foi de 64,1% nos pacientes com mCSPC de baixo volume versus 44,6% naqueles com alto volume. Pacientes não metastáticos linfonodo-positivos apresentaram SG de 79,4%, enquanto os linfonodo-negativos tiveram a melhor SG, alcançando 82,8% em 96 meses.
Os resultados demonstram que o volume de doença e o acometimento linfonodal influenciam significativamente a interpretação prognóstica do PSA durante o tratamento, inclusive em pacientes com PSA indetectável. Além disso, esquemas contendo abiraterona apresentaram maiores taxas de SG, reforçando o benefício da intensificação hormonal no cenário sensível à castração.
O estudo sugere que a combinação entre características radiológicas e níveis séricos de PSA pode melhorar a estratificação prognóstica dos pacientes com câncer de próstata avançado. Esses achados podem auxiliar no desenho de ensaios clínicos e na individualização terapêutica, permitindo identificar pacientes candidatos à intensificação ou ao descalonamento do tratamento.
Comentário do avaliador científico:
O estudo reforça evidências prévias sobre a importância da profundidade de resposta do PSA durante o tratamento do câncer de próstata metastático sensível à castração e da doença localmente avançada de alto risco, com ou sem acometimento linfonodal.
Os dados apresentados permitem melhor estratificação prognóstica dos pacientes, com base em características radiológicas e na cinética do PSA ao longo do tratamento. Além disso, o estudo nos convida a refletir sobre quais pacientes poderiam se beneficiar de maior ou menor intensidade terapêutica, buscando maior profundidade de resposta e, consequentemente, melhores desfechos oncológicos.
Como limitação, o uso de métodos de imagem convencionais pode levar ao subestadiamento da doença, impactando as análises realizadas. Além disso, considerando os avanços recentes no tratamento da doença resistente à castração, o impacto dos dados apresentados pode estar potencialmente superestimado.
Diversos estudos de fase 3 randomizados estão em andamento para confirmar essa hipótese e efetivamente modificar a prática clínica. Na prática, o estudo confirma e reforça o que já era conhecido sobre a relação de profundidade de resposta de PSA e desfechos oncológicos e, por ora, pouco modifica no dia a dia, mas orienta a tomada de decisão com maior precisão diante do desafio de equilibrar intensidade terapêutica com necessidade individual de tratamento.
Avaliador científico:
Dr. Paulo Franzoni da Silva
Oncologista clínico pelo Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein
Oncologista clínico no Hospital Israelita Albert Einstein
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