Título em inglês:
Postoperative Hepatic Arterial Infusion With Oxaliplatin After Surgery of Four or More Colorectal Liver Metastases: A Randomized Phase II Trial
Título em português:
Infusão arterial hepática pós-operatória com oxaliplatina após cirurgia de quatro ou mais metástases hepáticas colorretais: um estudo randomizado de fase II
Gelli M, Ewald J, Tanguy ML, Passot G, Quenet F, Touchefeu Y, et al. Postoperative Hepatic Arterial Infusion With Oxaliplatin After Surgery of Four or More Colorectal Liver Metastases: A Randomized Phase II Trial. J Clin Oncol. 2026 May 20;44(15):1416-1429. doi: 10.1200/JCO-25-01737.
Resumo do artigo:
O PACHA-01/PRODIGE-43 foi um estudo acadêmico, multicêntrico, aberto, randomizado, fase II, conduzido em 24 centros franceses, que avaliou uma estratégia de intensificação da adjuvância em pacientes submetidos a ressecção ou a ablação com intenção curativa de quatro ou mais metástases hepáticas colorretais. Originalmente concebido como parte de um desenho fase II/III não comparativo, o estudo teve recrutamento encerrado precocemente, levando à adaptação do plano estatístico e à conversão para análise comparativa de fase II.
O estudo comparou oxaliplatina por infusão arterial hepática (HAI) com a administração intravenosa (IV), ambas associadas a fluorouracil/leucovorina intravenosos (LV5FU2). Foram elegíveis pacientes adultos, ECOG 0–1, com câncer colorretal estádio IV, submetidos à ressecção ou ablação de ≥4 metástases hepáticas após quimioterapia pré-operatória baseada em oxaliplatina e/ou irinotecano, com ou sem terapia-alvo. Os pacientes deveriam apresentar resposta parcial ou doença estável. Doença extra-hepática foi excluída, exceto até três nódulos pulmonares ≤10 mm ressecáveis ou abláveis. O desfecho primário foi sobrevida livre de recorrência hepática (h-SLR); os secundários incluíram sobrevida livre de recorrência (SLR), sobrevida global (SG), toxicidade e factibilidade.
Entre junho de 2015 e dezembro de 2020, 100 pacientes foram randomizados até seis semanas após a cirurgia. A população por intenção de tratar incluiu 99 pacientes, 50 no grupo HAI e 49 no grupo IV. A mediana de idade foi 62 anos e 65% eram homens. A população possuía uma mediana de seis metástases hepáticas, 29% com oito ou mais lesões, 69% com acometimento linfonodal do tumor primário, 43% com mutação RAS, 8% com mutação BRAF e 74% classificados como alto risco pelo escore clínico de Fong. Foram considerados inicialmente ressecáveis 78% dos pacientes. A quimioterapia pré-operatória incluiu regime baseado em oxaliplatina em 68%, triplet em 29% e terapia-alvo em 54%. Hepatectomia de quatro ou mais segmentos foi realizada em 73% dos pacientes e 22% foram submetidos a hepatectomia em dois tempos. O número mediano de lesões tratadas foi de seis em ambos os grupos e as taxas de resposta patológica e ressecção completa foram semelhantes. O cateter para HAI foi implantado predominantemente por via percutânea, com taxa de sucesso de 92%.
Após seguimento mediano de 59 meses, houve ganho significativo em h-SLR, com uma mediana de 25 meses no grupo HAI versus 12 meses no grupo IV (HR 0,63; IC 95% 0,40–0,99; p=0,047). As taxas de h-SLR em 3 e 5 anos foram 38% e 32% com HAI, versus 23% e 17% com IV. Também houve melhora da SLR global com uma mediana de 14 versus 9 meses (HR 0,63; IC 95% 0,41–0,97; p=0,03) e SLR em 5 anos de 20% versus 9%. Em relação à SG, observou-se mediana de 74 meses no grupo HAI comparado com 57 meses no grupo IV (HR 0,61; IC 95% 0,33–1,12; p=0,11), sem significância estatística; a SG em 5 anos foi 62% versus 47%.
Entre os pacientes que receberam ao menos um ciclo de oxaliplatina adjuvante, quatro ou mais ciclos foram administrados em 81% no grupo HAI e 78% no grupo IV. Eventos adversos grau 3-4 foram mais frequentes com HAI (58% versus 32%), destacando-se a elevação de gama-glutamiltransferase, neutropenia e neuropatia periférica. Não houve casos de colangite esclerosante secundária. Complicações relacionadas ao cateter ocorreram em 19% dos pacientes, com remoção definitiva em 10%.
Comentário da avaliadora científica:
O artigo aborda estratégias de reduzir as taxas de recorrência hepática após tratamento local com intenção curativa em pacientes com múltiplas metástases hepáticas colorretais, sendo o primeiro ensaio randomizado a avaliar a HAI baseada em oxaliplatina neste contexto. A população incluída era de alto risco (mediana de seis lesões hepáticas, quase um terço com oito ou mais metástases e maioria classificada com alto risco pelo escore de Fong). O estudo demonstrou melhora significativa em h-SLR, que foi aproximadamente duas vezes maior com HAI, além de ganho em SLR global.
Contudo, trata-se de estudo fase II, aberto, com amostra pequena, encerramento precoce do recrutamento, e sem poder para demonstrar benefício em sobrevida global – embora a SG tenha sido numericamente maior no braço HAI. Além disso, houve maior toxicidade grau 3-4, e a técnica exige estrutura especializada, equipe multidisciplinar treinada, manejo adequado do cateter e confirmação da perfusão hepática, o que pode limitar sua reprodutibilidade.
A estratégia parece especialmente interessante para pacientes de alto risco e deve ser confirmada em estudo fase III, idealmente incorporando melhor seleção clínica, molecular e DNA tumoral circulante (ctDNA).
Avaliadora científica:
Dra. Camila Marchi Blatt
Oncologista clínica pelo Centro de Pesquisas Oncológicas (CEPON) – Florianópolis/SC
Oncologista no Grupo Oncoclínicas (Unidade Grande Florianópolis) e no CEPON
Título de Especialista em Oncologia Clínica pela SBOC/AMB
Instagram: @camilamblatt
Cidade de atuação: Florianópolis/SC
Oncologista sênior colaboradora: Dra. Juliana Florinda de Mendonça Rêgo
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