Título em inglês:
Avatrombopag Versus Placebo for Persistent Chemotherapy-Induced Thrombocytopenia in GI Cancers: The Phase II ACT-GI Trial
Título em português:
Avatrombopague versus placebo para trombocitopenia persistente induzida por
quimioterapia em cânceres gastrointestinais: o estudo de fase II ACT-GI
Citação:
Al-Samkari H, Shatzel JJ, Panch SR, et al. Avatrombopag Versus Placebo for Persistent Chemotherapy-Induced Thrombocytopenia in GI Cancers: The Phase II ACT-GI Trial. J Clin Oncol 2026. doi:10.1200/JCO-26-00568
Resumo do artigo:
Quando falamos de cuidados de suporte, uma das intercorrências de manejo mais desafiador é a plaquetopenia persistente induzida por quimioterapia, frequente nos pacientes com câncer gastrointestinal. Avatrombopague é um agonista oral do receptor de trombopoietina de segunda geração, que desponta como uma possível nova alternativa nesses casos.
O ACT-GI foi um estudo de fase II, multicêntrico, randomizado, e duplo-cego que avaliou avatrombopague versus placebo em pacientes com plaquetopenia persistente induzida por quimioterapia, definida como plaquetas ≤85 × 10⁹/L no D1 de um ciclo apesar de tempo adequado para recuperação do ciclo anterior. O desfecho primário foi a correção bem-sucedida da plaquetopenia com prevenção de recorrência: recuperação para ≥100 × 10⁹/L em até 14 dias, conclusão do ciclo em estudo sem redução de dose ou atraso por plaquetopenia e plaquetas ≥100 × 10⁹/L no início do ciclo seguinte.
Foram incluídos adultos com tumores gastroesofágicos, de intestino delgado, colorretais, pancreáticos ou hepatobiliares em quimioterapia com ciclos de 14, 21 ou 28 dias, com plano de manter o mesmo esquema e dose por pelo menos mais um ciclo caso houvesse recuperação plaquetária. Foram excluídos pacientes com neoplasias hematológicas, invasão medular, múltiplas metástases ósseas, outras causas de trombocitopenia, sangramento clinicamente significativo recente ou recuperação espontânea das plaquetas antes da randomização.
Os participantes foram randomizados 1:1 para avatrombopague ou placebo, com estratificação pelo número de agentes citotóxicos. O tratamento iniciou-se com avatrombopague ou placebo 40 mg/dia por até 14 dias, seguido pela retomada da quimioterapia quando a contagem plaquetária atingisse ≥100 × 10⁹/L. A dose foi titulada semanalmente entre 20 mg três vezes por semana e 60 mg/dia, visando manter plaquetas entre 100 e 250 × 10⁹/L. O estudo foi planejado para 60 pacientes, mas foi interrompido precocemente por eficácia na análise interina pré-especificada.
Foram randomizados 47 pacientes: 23 para avatrombopague e 24 para placebo. A mediana de idade foi 59 anos e 30% eram mulheres. A maioria apresentava doença metastática (74% no grupo avatrombopague e 88% no placebo), sendo o câncer colorretal o tumor mais frequente. A mediana de ciclos prévios de quimioterapia foi de 14 e 15, e 65% e 50% dos pacientes já haviam necessitado redução de dose. Os esquemas incluíam fluoropirimidina, oxaliplatina, irinotecano e combinações com gemcitabina e platina.
O desfecho primário foi alcançado por 70% dos pacientes tratados com avatrombopague versus 17% com placebo (16/23 vs. 4/24; p < 0,001). A recuperação plaquetária para ≥100 × 10⁹/L durante o período inicial ocorreu em 83% versus 46%. Ao final do ciclo em estudo, a mediana das plaquetas foi de 157 vs. 72 × 10⁹/L. Nenhum paciente necessitou de transfusão de plaquetas e apenas um evento hemorrágico clinicamente relevante ocorreu, não relacionado à trombocitopenia. Eventos adversos ocorreram em 78% vs. 46% e eventos adversos graves em 17% vs. 0%, nenhum relacionado ao tratamento. Não ocorreram eventos tromboembólicos venosos; houve um AVC isquêmico fatal no grupo avatrombopague, não relacionado ao fármaco.
Os autores apontam como limitações a ausência de desfechos de sobrevida e a heterogeneidade de tumores, estádios e linhas de tratamento. Concluem que o avatrombopague foi eficaz e seguro no manejo da plaquetopenia persistente induzida por quimioterapia no câncer gastrointestinal.
Comentário da avaliadora científica:
Os resultados sugerem que o avatrombopague oral é eficaz para corrigir a plaquetopenia persistente e para evitar sua recorrência, facilitando manter a quimioterapia no tempo e na dose planejados. Sabemos que pacientes com câncer gastrointestinal recebem esquemas quimioterápicos que resultam em efeitos colaterais desafiadores, que quando somados às intercorrências hematológicas frequentes, podem prejudicar o tratamento, inclusive do ponto de vista psicológico. Desse modo, na prática clínica, o ACT-GI é relevante por oferecer uma alternativa oral mais conveniente que o romiplostim atualmente utilizado, mas que exige aplicações subcutâneas semanais.
Ainda não está demonstrado que a preservação da intensidade de dose obtida com o tratamento da plaquetopenia resulte em melhora de sobrevida ou do controle tumoral. Estudos futuros devem avaliar a durabilidade do benefício, a segurança em longo prazo e o impacto do uso de agonistas de trombopoietina em diferentes tumores e regimes quimioterápicos. Evidências do mundo real, com seguimento prolongado,
serão importantes para responder a essas questões. Por ora, acredito que ter o avatrombopague como alternativa para os cuidados de suporte poderia proporcionar uma melhora da percepção dos pacientes quanto ao tratamento oncológico.
Avaliadora científica:
Dra. Raquel Madureira Filipe
Residência em Oncologia Clínica no Hospital Amaral Carvalho
Oncologista na Oncologia D’Or RJ e no Hospital Federal da Lagoa
Pós-Graduação em Cuidados Paliativos pelo Einstein Hospital Israelita
Instagram: @draraquel.onco
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