SBOC Review – Edição especial pós-ASCO 2026
Atualizações em Tumores Ginecológicos
Abstract 5501: Long-term survival rates and cure modeling with dostarlimab plus chemotherapy in mismatch repair deficient/microsatellite instability-high (dMMR/MSI-H) primary advanced or recurrent endometrial cancer in the ENGOT-EN6-NSGO/GOG-3031/RUBY trial
O estudo RUBY foi um ensaio clínico randomizado fase III que incluiu 494 pacientes com câncer de endométrio estádio III ou IV primário ou recorrente, sendo 118 pertencentes à coorte dMMR/MSI-H. As pacientes foram randomizadas 1:1 para dostarlimabe 500 mg q21d ou placebo associado a quimioterapia com carboplatina AUC 5 q21d + paclitaxel 175 mg/m² q21d por 6 ciclos, seguido de dostarlimabe 1000mg q42d ou placebo por até 3 anos. A randomização foi estratificada para o status MMR/MSI, radioterapia externa pélvica prévia e estádio (recorrente, primário III ou IV). O estudo incluiu como desfechos coprimários a sobrevida livre de progressão avaliada pelo investigador e a sobrevida global na população geral.
Na ASCO 2026, os resultados a longo prazo da coorte dMMR/MSI-H foram apresentados. Por meio de uma análise post-hoc, os investigadores quantificaram a proporção de pacientes potencialmente curadas e a probabilidade de sobrevida em marcos temporais futuros. Após mais 2,5 anos de seguimento, foram registrados poucos eventos de progressão adicionais na coorte dMMR/MSI-H, sendo observado um platô na curva de sobrevida livre de progressão (SLP) do grupo dostarlimabe + CP. A mediana de SLP não foi atingida neste grupo, em comparação com 7,7 meses no grupo placebo + CP (HR = 0,30; IC 95%, 0,17–0,52). Após a progressão, 71% das pacientes do grupo placebo + CP que receberam terapias oncológicas subsequentes foram expostas à imunoterapia. A despeito desse crossover significativo, o grupo dostarlimabe + CP manteve benefício robusto em sobrevida global, com mediana não atingida vs. 32,8 meses no grupo placebo + CP, traduzindo-se em uma taxa de sobrevida global aos 4 anos de 72,8% vs. 40,3%, respectivamente (HR = 0,34; IC 95%, 0,19–0,63). Dentre as pacientes sem progressão da doença após 2 anos, a probabilidade de permanecerem vivas e sem progressão aos 4 anos foi de 91,7%. A taxa estimada de cura foi de 54% no grupo dostarlimab + CP e 14% no grupo placebo + CP, representando um aumento de 3,9 vezes com a utilização de dostarlimab + CP em primeira linha.
Esta análise do seguimento longo prazo reforça que a imunoterapia associada à quimioterapia no câncer de endométrio dMMR/MSI-H é o padrão atual de tratamento em primeira linha. Nesse sentido, os resultados do estudo podem auxiliar oncologistas na comunicação de desfechos a longo prazo para as pacientes que se encontram nesse cenário.
Análise atualizada de sobrevida global e avaliação de terapias subsequentes em pacientes com câncer endometrial tratados com pembrolizumabe + carboplatina e paclitaxel (CP) em comparação com CP + placebo no estudo NRG-GY018
Abstract 5502: Updated Overall Survival Analysis and Examination of Subsequent Therapy in Endometrial Cancer (EC) Participants Treated With Pembrolizumab Plus Carboplatin/Paclitaxel (CP) as Compared to CP Plus Placebo in the NRG-GY018 Trial
O estudo fase III NRG-GY018 incluiu pacientes com câncer de endométrio estágio III/IVA mensurável, IVB ou recorrente, com status MMR avaliável por IHQ, ECOG 0–2 e sem quimioterapia prévia (exceto adjuvante concluída ≥12 meses antes). As pacientes receberam pembrolizumabe 200 mg q21d ou placebo associados a carboplatina AUC 5 + paclitaxel 175 mg/m² q21d por 6 ciclos (CP), seguidos de pembrolizumabe 400 mg q42d ou placebo por até 14 ciclos. A randomização 1:1 foi estratificada por status MMR, ECOG e quimioterapia adjuvante prévia. O desfecho primário foi a SLP avaliada pelo investigador nas coortes MMRd e MMRp. Foram incluídas 810 pacientes, 222 MMRd.
Na ASCO 2026, foram apresentados resultados a longo prazo. Na coorte MMRd, após seguimento mediano de 49 meses, houve benefício significativo de sobrevida global (SG) favorecendo pembrolizumabe + CP, com 78,6% das pacientes vivas aos 48 meses vs. 60,4% no placebo + CP (mediana não atingida em ambos; HR 0,56; IC 95% 0,34–0,92), consistente nos subgrupos. Entre as pacientes que receberam terapias subsequentes, 93,2% do grupo placebo + CP receberam imunoterapia (monoterapia em 63,5%). Na subanálise, as pacientes do braço placebo + CP expostas à imunoterapia após a progressão tiveram SG maior do que as não expostas (p = 0,0352); o mesmo não ocorreu no braço pembrolizumabe + CP (p = 0,1288).
Na coorte MMRp, após seguimento mediano de 44 meses, 46,7% das pacientes do grupo pembrolizumabe + CP estavam vivas aos 48 meses vs. 39,5% no placebo + CP (mediana de SG 44,4 vs. 35,1 meses; HR 0,86; IC 95% 0,69–1,08). A imunoterapia foi administrada a 81,1% das pacientes do braço placebo + CP em terapia subsequente, sem ganho de sobrevida em nenhum dos braços (p = 0,13 e p = 0,0755, respectivamente).
A nova análise reforça o benefício da combinação de quimioterapia e imunoterapia em primeira linha no câncer de endométrio dMMR. Na coorte pMMR, contudo, a despeito do benefício prévio em SLP, não houve significância estatística em SG. O elevado crossover é uma justificativa possível, mas a subanálise dos autores mostrou que a imunoterapia após a progressão não se associou a maior sobrevida nessa população.
GINECO-ov244b/ENGOT-ov58/TEDOVA: vacina baseada em neo-epítopo OSE2101 +/- pembrolizumab vs. melhor tratamento de suporte como manutenção no câncer de ovário sensível a platina
Abstract 5510: The randomized Phase 2 GINECO-ov244b/ENGOT-ov58/TEDOVA trial: neo-epitope-based vaccine +/- pembrolizumab vs best supportive care as maintenance in platinum-sensitive ovarian cancer
O ensaio randomizado fase II TEDOVA (GINECO-ov244b/ENGOT-ov58) avaliou a OSE2101, uma vacina multi-neo-epítopo baseada em antígenos tumorais e desenvolvida para aumentar a imunogenicidade tumoral, cujo uso requer alelo HLA-A2 positivo.
Foram incluídas pacientes com câncer de ovário epitelial não-mucinoso que receberam platina no cenário sensível, sem progressão após pelo menos quatro ciclos, e com exposição prévia ou contraindicação a iPARP e bevacizumabe. As HLA-negativas compuseram uma coorte observacional; as HLA-positivas foram randomizadas 1:1:2 em três braços: A) melhor tratamento de suporte (best supportive care, BSC; n = 48); B) OSE2101 5 mg por via subcutânea a cada 6 semanas até a semana 48 e, depois, a cada 12 semanas por até dois anos (n = 48); ou C) OSE2101 + pembrolizumabe a cada 6 semanas por até dois anos (n = 91). A estratificação foi pela melhor resposta à platina (completa/parcial vs. doença estável). O desfecho primário foi a SLP por RECIST 1.1, analisada de forma hierárquica a partir da comparação entre o braço combinado e o BSC.
Nas características basais, houve maior prevalência de deficiência de recombinação homóloga (HRD+) no braço OSE2101 em monoterapia (76,0% vs. 57,0% na combinação vs. 44,0% no BSC), com as demais variáveis balanceadas. Mais de 80,0% da amostra já havia recebido bevacizumabe e/ou iPARP, e cerca de 60,0% das que usaram iPARP progrediram durante o tratamento — uma população de alto risco para resistência à platina. Aproximadamente metade das pacientes de cada grupo teve resposta prévia parcial ou completa à platina.
Os resultados preliminares, apresentados na Sessão de Temas Livres Orais da ASCO 2026, mostraram benefício significativo em SLP para OSE2101 + pembrolizumabe vs. BSC (medianas de 4,11 vs. 2,76 meses; HR 0,53; IC 95% 0,36–0,78; p < 0,001). Na análise de subgrupos, a resposta parcial ou completa à platina foi o único preditor de benefício da combinação (HR 0,31; IC 95% 0,17–0,53). Pelo desenho hierárquico e pelo tamanho amostral, as demais comparações tiveram poder limitado: não houve diferença entre a combinação e a monoterapia (4,11 vs. 2,89 meses; HR 0,72; IC 95% 0,50–1,04; p = 0,074), nem entre OSE2101 isolada e o BSC (2,89 vs. 2,76 meses; HR 0,70; IC 95% 0,46–1,08; p = 0,099).
Quanto à segurança, eventos adversos de grau ≥ 3 foram mais frequentes na combinação (40,0% vs. 26,0% com OSE2101 e 6,0% com BSC). No braço combinado, a vacina e o pembrolizumabe foram definitivamente descontinuados em 23,0% e 20,0% dos casos. Os eventos mais comuns foram reações no sítio de injeção (57,0%), síndrome de liberação de citocinas (SLC; 28,0%, sendo 6,0% grau ≥ 3), febre (22,0%), artralgia (21,0%) e astenia (20,0%); a profilaxia com paracetamol ou anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) reduziu a SLC, e houve um óbito por miocardite imunomediada. Na monoterapia com OSE2101, apenas 4,0% descontinuaram, predominando reações no sítio de injeção (35,0%), anemia (20,0%) e astenia, febre e artralgia (17,0% cada); a SLC foi de 9,0% (4,0% grau ≥ 3).
O TEDOVA é o primeiro ensaio a demonstrar benefício de uma abordagem vacinal associada a inibidor de checkpoint nesse contexto, com ganho de SLP da combinação OSE2101 + pembrolizumabe sobre o BSC, impulsionado sobretudo pelas pacientes responsivas à platina. Uma limitação dos dados preliminares foi a ausência de estratificação e relato do status MMR e da expressão de PD-L1 — variáveis que influenciam a resposta ao pembrolizumabe e cujo desbalanço pode ser um confundidor relevante. É necessário maior seguimento para confirmar a manutenção do ganho de SLP, avaliar o impacto em sobrevida global e esclarecer o papel da vacina em monoterapia.
MIROVA/AGO-OVAR 2.34: Ensaio clínico randomizado fase II de mirvetuximabe soravtansina em câncer de ovário recorrente elegível a quimioterapia baseada em platina com alta expressão do receptor de folato alfa
Abstract 5506: A randomized phase II trial of Mirvetuximab soravtansine in folate receptor alpha (FR alpha) high recurrent ovarian cancer eligible for platinum-based chemotherapy – MIROVA/AGO-OVAR 2.34
O mirvetuximabe soravtansina é um conjugado anticorpo-fármaco (ADC) aprovado pelo FDA e pela ANVISA para câncer de ovário seroso de alto grau com elevada expressão do receptor de folato alfa (FRα) e progressão após quimioterapia baseada em platina.
Esse estudo de fase 2 incluiu pacientes com câncer de ovário, peritônio ou tuba uterina de qualquer subtipo histológico que apresentavam expressão elevada de FRα, determinada pelo escore PS2+ (≥75% das células tumorais com marcação de membrana e intensidade ≥ 2+); que houvessem recidivado após pelo menos uma linha prévia de quimioterapia; e que tivessem um intervalo livre de platina (ILP) de ao menos três meses. Adicionalmente, deveriam ser consideradas não candidatas ao uso de bevacizumabe. O uso prévio de inibidores de PARP (iPARP) era mandatório em tumores BRCA-mutados. A randomização 1:1 foi estratificada pelo número de linhas prévias de quimioterapia (1–2 versus ≥3), intervalo livre de platina (>3–6 meses versus 6–12 meses versus >12 meses) e status mutacional do BRCA. As pacientes foram alocadas para um de dois braços: A) quimioterapia (QT) convencional baseada em platina (carboplatina associada a doxorrubicina lipossomal peguilada, gencitabina ou paclitaxel), seguida por observação clínica ou iPARP de manutenção conforme indicação (n = 70); ou B) carboplatina AUC 5 combinada a mirvetuximabe soravtansina 6 mg/kg (calculado pelo peso ideal ajustado), seguida por manutenção apenas com mirvetuximabe soravtansina (n = 75). O desfecho primário do estudo foi a SLP avaliada pelo investigador de acordo com o RECIST 1.1.
Os resultados preliminares foram apresentados na Sessão de Temas Livres Orais da ASCO 2026. Aproximadamente 60% da amostra em ambos os braços apresentava um intervalo livre de platina superior a 12 meses.
A análise preliminar de SLP, com um seguimento mediano de aproximadamente 9 meses, não evidenciou diferença estatisticamente significativa entre os braços do estudo (HR=1,00; IC 95%: 0,68–1,46; p=0,996). Na análise de subgrupos, pacientes expostas a mais de duas linhas prévias de quimioterapia apresentaram maior benefício com o uso da QT convencional; nas demais variáveis, não foram observadas diferenças significativas. Em contrapartida, a taxa de resposta objetiva foi superior no grupo tratado com o mirvetuximabe soravtansina (66,2% versus 32,8% no braço da QT convencional).
Houve uma maior necessidade de reduções de dose no braço do mirvetuximabe soravtansina (58,2%; n = 43, sendo que 26 pacientes realizaram redução de carboplatina e 27 do ADC) em comparação ao grupo da QT convencional (42,9%; n = 27). Adicionalmente, este braço apresentou maior incidência de eventos adversos, destacando-se a trombocitopenia (47,0% versus 35,0%), neuropatia periférica (53,0% versus 11,0%), toxicidades oculares (turvação visual em 49,0% versus 2,0%; ceratopatia em 28,0% versus 0,0%) e pneumopatia intersticial (6,0% versus 0,0%).
Alguns fatores metodológicos e biológicos devem ser ponderados na interpretação desta análise preliminar. A elevada proporção de pacientes com ILP superior a 12 meses resultou em poucos eventos de progressão em ambos os braços, sugerindo seguimento ainda imaturo. Além disso, a despeito da estratificação, houve desequilíbrio de pacientes com apenas uma linha prévia em detrimento do braço do mirvetuximabe soravtansina, um possível viés de seleção. A maior incidência de eventos adversos limitantes — e os consequentes ajustes de dose — pode explicar o descompasso entre a maior taxa de resposta e a ausência de ganho em SLP. Como o manuscrito ainda não foi publicado, os dados atuais não sustentam a combinação de carboplatina e mirvetuximabe soravtansina na doença sensível à platina. O estudo GLORIOSA segue avaliando a combinação do ADC com bevacizumabe em manutenção.
CHIPRO: fase 3 de chiauranibe + paclitaxel semanal para câncer de ovário resistente ou refratário a platina
Abstract LBA5504: A phase III CHIPRO study of chiauranib plus weekly paclitaxel for platinum-resistant or refractory ovarian cancer
O chiauranib é um inibidor multialvo de quinases que atua em três frentes: bloqueio da angiogênese (VEGFR1/2/3 e PDGFR), inibição da proliferação e indução de catástrofe mitótica (inibição seletiva da Aurora B quinase) e remodelamento do microambiente imune (CSF-1R, PDGFR e DDR1).
O ensaio multicêntrico fase III CHIPRO avaliou a eficácia e segurança do chiauranib em câncer de ovário, tuba uterina ou peritônio resistente à platina, com uma a cinco linhas prévias de tratamento sistêmico. As pacientes foram randomizadas 1:1: o grupo CP (n = 228) recebeu chiauranib 50 mg por via oral contínuo + paclitaxel semanal 60 mg/m² (escalonado a 80 mg/m² a partir do ciclo 2, se tolerado) em ciclos de 21 dias por até 6 ciclos, seguido de manutenção com chiauranib; o grupo PP (n = 231) recebeu placebo + paclitaxel semanal no mesmo esquema, com manutenção com placebo. A estratificação foi pelo número de linhas prévias (1–2 vs. ≥ 3) e pelo ILP (≤ 6 vs. > 6 meses). Os desfechos coprimários foram SLP por comitê de revisão independente (RECIST 1.1) e sobrevida global (SG).
Com seguimento mediano de aproximadamente 15 meses (ASCO 2026), houve benefício significativo em SLP favorecendo o braço CP (mediana 4,57 vs. 2,69 meses; HR 0,427; IC 95% 0,34–0,54; p < 0,001), com redução de 57% no risco de progressão ou morte e benefício consistente nos subgrupos. O regime CP também teve maior taxa de resposta objetiva (35,0% vs. 13,4%) e maior duração de resposta (4,14 vs. 2,83 meses).
Na sobrevida global por intenção de tratar (ITT), contudo, não houve diferença entre os braços: 50,6% das pacientes do grupo CP e 50,4% do PP estavam vivas aos 12 meses (HR 0,932; IC 95% 0,73–1,20; p = 0,583).
Quanto à segurança, eventos adversos de grau ≥ 3 foram mais frequentes no braço CP (90,4% vs. 54,3%), assim como interrupções temporárias (68,4% vs. 32,6%) e reduções de dose (37,3% vs. 12,6%); a descontinuação definitiva por toxicidade foi semelhante (6,1% vs. 4,8%). Os eventos mais comuns com chiauranib foram alterações hematológicas, diarreia e perda ponderal, além de taxas não desprezíveis de proteinúria e hipertensão arterial.
O câncer de ovário resistente à platina tem prognóstico historicamente adverso, o que torna imprescindível o desenvolvimento de terapias de resgate eficazes. Neste estudo, porém, o chiauranib trouxe benefício clínico apenas marginal: a ausência de ganho em sobrevida global na população ITT, mesmo com número elevado e maduro de óbitos, sugere que a análise de longo prazo deve permanecer sem diferença entre os grupos.
Avaliadora científica:
Dra. Sofia Giusti Alves
Oncologista Clínica pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) – Porto Alegre/RS
Oncologista no Hospital São Lucas da PUCRS e Fellowship de Pesquisa Clínica em andamento no Hospital Moinhos de Vento
Instagram: @oncosofiagiusti
Cidade de atuação: Porto Alegre/RS
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