
A diretora da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), Dra. Daniele Assad, apresentou um diagnóstico contundente sobre os desafios e as soluções para o enfrentamento dos cânceres ginecológicos no país durante audiência pública na Comissão de Saúde do Senado Federal, realizada hoje, 5 de maio, em Brasília (DF). Com foco especial no câncer de colo do útero, que registra cerca de 17 mil novos casos anuais, a oncologista enfatizou que o Brasil ainda está distante das metas estabelecidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para a erradicação da doença.
Um dos pontos centrais da fala da oncologista clínica foi a necessidade crítica de elevar as taxas de cobertura vacinal contra o HPV. Segundo a diretora, o Brasil está aquém da meta de 90% estipulada pela OMS para crianças de 9 a 14 anos. Atualmente, os índices brasileiros não atingem 80% entre meninas e são inferiores a 70% entre os meninos.
“Precisamos voltar com a vacina, de fato, nas escolas. É necessário conscientizar a população de que a vacinação contra o HPV previne mortes. Isso precisa ficar muito claro por meio de campanhas maciças”, defendeu Dra. Daniele.
A diretora da SBOC lembrou que, embora o Brasil utilize a vacina quadrivalente — que previne 70% dos casos —, a cobertura ainda não é universal. A especialista alertou, ainda, para a ineficiência do modelo de rastreamento atual no Brasil, classificado como “oportunista” — quando a mulher procura o exame por iniciativa própria, sem uma convocação ativa do sistema de saúde. Enquanto a OMS recomenda uma cobertura de 70% com testes de alto rendimento (HPV DNA), a abrangência da citologia (Papanicolau) no Brasil flutua entre apenas 30% e 50%, exemplificou.
A especialista trouxe à tona o impacto do preconceito no diagnóstico precoce. Dados apontam que cerca de 12% das mulheres brasileiras nunca realizaram um teste preventivo, motivadas por medo, vergonha, desconhecimento ou pressão familiar. Para a SBOC, combater esses tabus é tão fundamental quanto a oferta tecnológica.
A audiência também teve como tema o câncer de ovário. Sobre o tema, a diretora da SBOC esclareceu que não existe um rastreio populacional eficaz, mas sim um acompanhamento baseado em risco genético. Ela destacou a importância da testagem para mutações nos genes BRCA1 e BRCA2. “Com esses resultados, é possível realizar uma cirurgia redutora de riscos nestas pacientes”, explicou.
Associada SBOC e diretora do Departamento de Atenção ao Câncer da Secretaria de Atenção Especializada à Saúde do Ministério da Saúde, Dr. Guacyra Bezerra, ressaltou que estes testes foram incorporados pela Conitec em abril último. “No Ministério, estamos estudando como precificá-los dentro do Sistema Único de Saúde para operacionalizar a oferta às mulheres com indicação de testagem”, relatou.
Outro ponto importante levantado durante as discussões da audiência foram fatores de diversidade de gênero e social. Dr. Agnaldo da Silva Filho, diretor da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) citou um estudo recente, publicado pelo The Lancet, feito por um hospital oncológico em Mumbai (Índia), que mostrou que a cada dois meninos, somente uma menina era atendida na unidade. “Se as mulheres fossem olhadas, várias mortes poderiam ser evitadas”, defendeu.
Ele também apontou um ponto que pode ser tão determinante na evolução de um câncer como o estadiamento ou a biologia. “Se alguém me falar o seu CEP, provavelmente poderei lhe falar sobre a mortalidade em relação ao câncer. Há uma disparidade muito grande em relação ao acesso a sistemas de saúde. É inadmissível que viver ou morrer dependa de uma pessoa ter ou não acesso ao SUS, à medicina privada ou à medicina suplementar”, argumentou.
Endereço
Avenida Paulista, 2073, Edifício Horsa II – Conjunto Nacional Conj. 1003, São Paulo/SP, 01311-300
Telefone
+55 (11) 3192-9284