
A sessão plenária do Encontro Anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO) foi palco de um dos momentos mais marcantes da oncologia nos últimos anos. A apresentação dos resultados do estudo de fase 3 RASolute 302, acompanhada de publicação simultânea no The New England Journal of Medicine (NEJM) – disponível na Biblioteca Virtual da SBOC, para associados – levou milhares de especialistas a uma longa salva de aplausos de pé, em reconhecimento ao potencial transformador dos dados para uma das doenças mais agressivas e letais da medicina: o câncer de pâncreas.
O estudo avaliou o daraxonrasib em pacientes com adenocarcinoma ductal pancreático metastático previamente tratado. Trata-se de uma terapia-alvo oral desenvolvida para bloquear a atividade da proteína RAS, considerada o principal motor biológico desse tumor. Alterações nessa via molecular estão presentes em mais de 90% dos casos de câncer de pâncreas.
Foram incluídos 500 pacientes de diversos países, dos quais 91,8% apresentavam mutações RAS G12. Os participantes foram randomizados para receber daraxonrasib ou quimioterapia padrão.
Os resultados foram considerados inéditos para esse cenário clínico. A mediana de sobrevida global alcançou 13,2 meses entre os pacientes tratados com daraxonrasib, comparada a 6,6 meses no grupo da quimioterapia. O benefício também foi observado na população geral do estudo, com sobrevida de 13,2 meses versus 6,7 meses.
Além disso, a mediana de sobrevida livre de progressão foi de 7,3 meses com daraxonrasib, contra 3,5 meses com quimioterapia. O tratamento também demonstrou um perfil de segurança favorável, com menor taxa de descontinuação por eventos adversos relacionados ao tratamento: apenas 1,2% dos pacientes interromperam o uso da medicação, frente a 11,2% no braço de quimioterapia.
Para a Presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), Dra. Clarissa Baldotto, o anúncio representa um dos avanços mais relevantes já observados na história recente do tratamento do câncer de pâncreas.
“Foi uma das cenas mais emocionantes que já presenciei em um congresso científico. Ver uma plenária inteira se levantar para aplaudir um estudo em câncer de pâncreas demonstra a dimensão do impacto desses resultados. Estamos falando de uma doença que, durante décadas, registrou poucos avanços capazes de mudar significativamente o prognóstico dos pacientes”, afirmou.
Segundo a oncologista, a importância do estudo vai além dos números. “Por muitos anos, a comunidade científica tentou encontrar formas eficazes de bloquear a via RAS, considerada um dos principais motores do câncer de pâncreas. O que este estudo mostra é que finalmente conseguimos transformar décadas de conhecimento biológico em benefício clínico concreto para os pacientes. É uma mudança de paradigma.”
Dra. Clarissa destaca ainda que a publicação simultânea no New England Journal of Medicine, uma das mais prestigiadas revistas médicas do mundo, reforça a robustez dos resultados apresentados na ASCO. “A publicação é um reconhecimento da relevância científica do estudo e da qualidade dos dados. Isso acontece apenas com trabalhos considerados capazes de impactar imediatamente a prática médica.”
Segundo a presidente da SBOC, o próximo passo agora é a incorporação do daraxonrasib à prática clínica. “Após resultados tão consistentes, a expectativa é que o medicamento avance rapidamente nos processos regulatórios e passe a integrar o tratamento padrão dos pacientes elegíveis”, disse. “Os Estados Unidos deverão ser os primeiros a incorporar essa nova opção terapêutica, e nós, no Brasil, já começamos a trabalhar para que essa inovação chegue ao país o mais rapidamente possível, garantindo que os pacientes brasileiros também possam se beneficiar desse avanço”, completou.
Para Dra. Clarissa, por fim, os aplausos que encerraram a apresentação do estudo simbolizam algo raro na oncologia. “O que vimos foi a celebração da ciência. Médicos, pesquisadores e profissionais de saúde do mundo inteiro reconheceram que estavam diante de um avanço que pode redefinir o futuro do tratamento do câncer de pâncreas. Os aplausos de pé não foram apenas para um estudo. Foram para os pacientes, para a pesquisa clínica e para a esperança real de mudar a história natural de uma das doenças mais difíceis que enfrentamos.”
Os resultados apresentados na ASCO 2026 reforçam a expectativa de que o daraxonrasib inaugure uma nova era no tratamento do câncer de pâncreas metastático, oferecendo, pela primeira vez, uma terapia-alvo capaz de gerar ganhos expressivos de sobrevida em uma doença que há décadas desafia a oncologia mundial.
Durante o Encontro, centenas de representantes e associados da SBOC estiveram presentes, com diversos destaques na programação oficial, seja em apresentações orais, seja na sessão de pôsteres. Além disso, a entidade divulgará, em breve, a sua tradicional cobertura em vídeo, com especialistas resumindo o que de mais importante foi apresentado no principal congresso oncológico do mundo.
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