
Diante da realidade de que o câncer deve se tornar a doença mais comum no Brasil nos próximos anos, a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) promoveu um debate sobre o tema nesta quinta-feira, 11 de junho, durante o 4º Congresso Brasileiro de Medicina Geral, organizado pela Associação Médica Brasileira (AMB). A discussão teve como objetivo fornecer ferramentas práticas para médicos generalistas, que frequentemente são a primeira linha de cuidado desses pacientes.
Presidente da SBOC, Dra. Clarissa Baldotto foi uma das coordenadoras da mesa e explicou que a sessão foi construída com especial atenção em aproximar a oncologia de médicos generalistas, jovens profissionais e estudantes. “É fundamental que todo médico, independentemente de sua especialidade, tenha contato e conviva com o conteúdo da especialidade”, introduziu.
Conselheiro fiscal da SBOC e membro da Diretoria da AMB, Dr. Jose Aurílio Rocha, que também coordenou a sessão, reforçou o convite à nova geração de médicos, lembrando que os avanços científicos mudaram o prognóstico da doença. “Os novos tratamentos aumentaram drasticamente a sobrevida dos pacientes. O médico geral precisa saber disso e estar preparado para acolher essa demanda”, afirmou.
O desafio das toxicidades
Membro do Comitê de Tumores Torácicos da SBOC, Dr. Guilherme Harada abriu as discussões pontuando que o volume de novos casos de câncer tem dobrado, acompanhado por uma explosão de novas técnicas terapêuticas, como quimioterapia, terapias-alvo, imunoterapia, anticorpos conjugados a drogas (ADCs) e técnicas radioterápicas ablativas. Cada uma delas gera efeitos colaterais completamente diferentes.
Para o especialista, nesse cenário, o papel dos profissionais da atenção primária é crucial porque representa o primeiro ponto de contato e o local de maior vínculo do paciente. Dr. Harada sugeriu duas regras de ouro para os jovens profissionais: “Primeiro, conhecer as toxicidades; segundo, saber onde buscar informações confiáveis”.
Reconhecimento de eventos adversos
Dando sequência ao foco educativo, o membro do Comitê Científico da SBOC, Dr. Rodrigo Munhoz, detalhou os avanços e os riscos das novas terapias. Ele resgatou o histórico da imunoterapia, que começou a transformar o cenário do melanoma em 2011 e deu um grande salto a partir de 2014 com os agentes anti-PD1.
“Hoje, quase todos os tumores sólidos têm alguma indicação de bloqueio de correceptor imune, seja em cenário avançado, adjuvante ou neoadjuvante. Isso significa que esses medicamentos estão permeando o dia a dia da medicina geral”, alertou.
A grande questão para o generalista é que as toxicidades imunomediadas são muito comuns (com incidência geral de 66%, sendo 15% de casos graves, de grau 3 ou superior). Elas podem se manifestar de diversas formas: eventos neurológicos, endócrinos, gastrointestinais, dermatológicos, hepáticos, além de pneumonite, uveíte, conjuntivite e sarcoidose.
“O pronto reconhecimento pelo profissional é fundamental para manter o plano terapêutico do paciente. O manejo vai muito além do uso de esteroides e, quando apropriadamente tratados, esses eventos são potencialmente reversíveis”, afirmou Dr. Munhoz.
A vida após o câncer
A representante do Comitê de Cuidados em Sobreviventes da SBOC, Dra. Solange Moraes Sanches, trouxe dados alarmantes que quebram o mito de que o cuidado termina quando o tratamento principal (cirurgia, quimio ou radioterapia) acaba. “Existe uma assertiva equivocada de que, após o tratamento, o paciente simplesmente ‘volta à vida normal’. Isso desconsidera alterações físicas, psicológicas e sociais profundas”, alertou.
Atualmente, o Brasil conta com 3,5 milhões de sobreviventes de câncer. Destes, mais de 60% apresentarão ao menos um efeito tardio clinicamente relevante. A atenção básica é justamente quem assume o cuidado desse indivíduo após a alta do oncologista.
A oncologista também reforçou outros riscos relacionados a saúde mental (até 40% enfrentam ansiedade ou depressão; e 20% quadros parecidos ao Transtorno de Estresse Pós-Traumático) e à toxicidade financeira (62% dos pacientes relatam dificuldades graves neste campo após o diagnóstico de câncer). Por isso, ela apresentou alternativas que os generalistas precisam conhecer, como encaminhamentos psicológicos e a grupo de apoios e diálogos sobre alternativas financeiras para o tratamento.
Guia de Cuidados aos Sobreviventes
Alinhada com a sessão e a necessidade de capacitar os médicos que atuam na ponta do sistema de saúde, a SBOC lançou, no estande oficial da AMB no evento, o seu novo Guia de Cuidados aos Sobreviventes. O material foi desenvolvido especialmente para orientar a condução do seguimento oncológico e o manejo de sequelas tardias na prática clínica.
Durante cerimônia de lançamento, Dra. Clarissa agradeceu a parceria constante que a SBOC e a AMB mantêm e reforçou a importância do tema. “Felizmente, hoje, muitos pacientes com diagnóstico de câncer sobrevivem e precisamos atuar, junto com toda a comunidade médica e de saúde, para que eles tenham acompanhamento e tratamento adequados ao longo de suas jornadas”, explicou.
O Presidente da AMB, Dr. César Eduardo Fernandes, também esteve presente e relembrou que, se antes os diagnósticos oncológicos soavam como sentenças, hoje a realidade é outra, reforçando a importância de um guia como este. Participaram, ainda, Dra. Solange, que além de palestrante é uma das autoras do Guia, Dra. Marisa Madi, Diretora Executiva da SBOC, e Dr. Etelvino de Souza Trindade, vice-presidente da AMB.
O Guia foi coordenado pela Coordenadora dos Comitês de Comunicação e de Cuidados em Sobreviventes da SBOC, Dra. Sabrina Chagas, e teve como facilitadora a membro da Diretoria Dra. Daniele Assad. Participaram como autoras: Dra. Ana Carolina Salles, Dra. Ana Lucia Coradazzi, Dra. Camila Chiodi, Dra. Carla Pavei, Dra. Carolina Rocha, Dra. Clara Peixoto, Dra. Clarissa Mathias, Dra. Debora Cotrim, Dra. Debora Dornellas, Dra. Gilmara Resende, Dra. Gisah Guilgen, Dra. Hamanda Nery, Dra. Laryssa Nobrega, Dr. Marconi Gomes da Silva, Dra. Maria Alice Franzoi, Dra. Maria Cristina Figueroa Magalhães, Dra. Maria Eduarda Meyer, Dra. Mariana Locatelli, Dra. Marília Sampaio, Dr. Mário Machado Lopes, Dr. Pedro Cacilhas, Dr. Pedro Henrique Souza, Dr. Pedro Lopez, Dra. Poliana Signorini, Dra. Renata Bonadio, Dra. Renata Cangussu, Dr. Sandro Cavallero, Dra. Solange Sanches, Dra. Tathiane Oliveira, Dra. Thaiana Aragão, Dra. Virginia Moreira e Dra. Virgínia Sessa.
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