
As transformações necessárias para garantir a sustentabilidade da oncologia brasileira, a estruturação da rede de cuidado do câncer no SUS e o fortalecimento da atuação profissional dos oncologistas estiveram entre os temas debatidos nesta quinta-feira, 5 de novembro, no Congresso SBOC 2026.
Em diferentes sessões da programação, especialistas discutiram caminhos para responder ao aumento da demanda por cuidados oncológicos, impulsionado pelo envelhecimento populacional, pela maior incidência de câncer, pelos avanços terapêuticos e pelo aumento da sobrevida dos pacientes.
Durante a sessão de Políticas Públicas, o economista da saúde André Cezar Medice destacou que os desafios do financiamento da oncologia exigem uma visão mais ampla do que o tratamento da doença. Segundo ele, o debate não deve se concentrar apenas em quanto o país precisa gastar com câncer, mas em como reduzir casos evitáveis, ampliar o diagnóstico precoce e aumentar a sobrevida da população.
“O financiamento do câncer é diferente do financiamento do controle do câncer”, afirmou. Para Medice, o controle da doença envolve prevenção, rastreamento e diagnóstico precoce, enquanto o cuidado contempla navegação do paciente, tratamento, reabilitação e cuidados paliativos.
O especialista ressaltou ainda que a pressão financeira sobre os sistemas de saúde continuará crescendo nas próximas décadas em razão do envelhecimento populacional, do aumento do número absoluto de casos, do acompanhamento prolongado de sobreviventes de câncer e da incorporação de tecnologias cada vez mais sofisticadas.
Estruturando a rede oncológica
Também na sessão, o coordenador-geral da Assistência Farmacêutica do Ministério da Saúde, Dalmare Falcão, apresentou avanços da Assistência Farmacêutica em Oncologia (AF-Onco), iniciativa que busca organizar processos e responsabilidades na rede pública de atenção ao câncer.
Segundo ele, a proposta responde a desafios como o crescimento da demanda por tratamento, a incorporação de tecnologias de alto custo, as desigualdades regionais, as limitações de financiamento e a necessidade de reduzir a judicialização.
Entre os avanços destacados estão a definição de fluxos para aquisição, dispensação e administração de medicamentos, mecanismos de rastreabilidade, utilização de sistemas eletrônicos e a implementação de novos instrumentos de monitoramento da assistência.
Falcão também destacou a criação de uma APAC específica para acompanhamento da dispensação e administração de medicamentos oncológicos, além de iniciativas voltadas para negociação nacional de medicamentos e fortalecimento de centrais de diluição.
O debate foi complementado pelo diretor da SBOC, Dr; André Sasse, que destacou a importância da construção de modelos de remuneração mais conectados a indicadores e resultados assistenciais. Para ele, a organização da linha de cuidado e a produção de informações qualificadas serão fundamentais para qualquer discussão futura sobre modelos de remuneração baseados em valor.
Defesa profissional em foco
A atuação da SBOC em prol dos oncologistas também foi tema de destaque na sessão “A SBOC e Você”, que reuniu associados para uma roda de conversas com lideranças e representantes regionais da entidade.
A associada em Minas Gerais Mônica Cristina Toledo Pereira apresentou iniciativas da SBOC voltadas ao enfrentamento de desafios relacionados à autonomia médica, remuneração, condições de trabalho, segurança jurídica e relacionamento com operadoras e órgãos reguladores.
A palestrante também apresentou a nova diretriz da Sociedade sobre comunicação digital entre médicos e pacientes, diante da crescente utilização de aplicativos de mensagens, além de explorar a necessidade de entender e saber como lidar com o uso de inteligência artificial pelos pacientes.
Presidente da SBOC, Dra. Clarissa Baldotto ressaltou que a defesa profissional deve é uma área ampla, incluindo também iniciativas de educação e desenvolvimento de carreira. Segundo ela, a Sociedade trabalha para ampliar o apoio aos associados em temas que tradicionalmente não fazem parte da formação médica, como gestão de carreira, aspectos regulatórios e relacionamento com instituições do sistema de saúde.
Pesquisa e bem-estar profissional
A programação também trouxe atualizações sobre iniciativas de pesquisa apoiadas pela SBOC. Diretor da entidade, Dr. William William apresentou resultados do Brazilian Journal of Oncology (BJO), periódico oficial da SBOC, SBCO e SOBOPE, além de destacar iniciativas como Fundo de Incentivo à Pesquisa, o Programa de Capacitação em Pesquisa e a Plataforma de Pesquisa Clínica.
Já na sessão de Práticas Integrativas, a hematologista Regina Chamon discutiu estratégias para manejo do estresse e prevenção do burnout entre profissionais e pacientes.
A especialista, que é autora de livros sobre o tema e host do podcast “Desestresse”, destacou que situações caracterizadas por baixo controle, imprevisibilidade, novidade e sensação de ameaça tendem a desencadear respostas de estresse, elementos frequentemente presentes tanto na experiência do paciente oncológico quanto na rotina dos profissionais envolvidos no cuidado.
Entre as intervenções com maior nível de evidência científica, Chamon ressaltou práticas de mindfulness, meditação, atividade física e suporte psicossocial estruturado. Segundo ela, estudos clínicos têm demonstrado benefícios consistentes dessas abordagens na redução de sintomas de estresse, ansiedade e depressão em pessoas com câncer.
A sessão contou, ainda, com discussões e atividades práticas e teóricas sobre acupuntura, yoga, meditação, artes marciais, foco mental, balanço interno e espiritualidade.
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