
O último dia do Congresso SBOC 2026 reuniu discussões que extrapolaram os avanços terapêuticos e colocaram em pauta temas fundamentais para o futuro da oncologia brasileira. Entre os destaques da programação estiveram o 2º Encontro Nacional da Oncologia Clínica no SUS, que reuniu especialistas e gestores para debater políticas públicas, acesso e organização da rede de cuidado, a sessão de pitches das startups selecionadas pelo congresso e a sessão especial “Entre Arte e Medicina: O Câncer Retratado ao Longo da História”, que mostrou como diferentes expressões artísticas ajudam a compreender a evolução da oncologia e a experiência humana diante da doença.
Coordenado pela coordenadora de oncologia do ICESP, Dra. Maria del Pilar Estevez Diz, e pelo diretor do INCA e ex-presidente da SBOC, Dr. Roberto de Almeida Gil, o 2º Encontro Nacional da Oncologia Clínica no SUS promoveu um amplo debate sobre rastreamento, incorporação de tecnologias, assistência farmacêutica e navegação de pacientes.
Na discussão, Dra. Pilar destacou que o desafio da oncologia brasileira exige uma visão ampliada da jornada assistencial. “Nós, oncologistas, temos a obrigação de olhar para a linha de cuidado e não especificamente para procedimentos isolados.”
O tema da navegação do paciente apareceu de forma recorrente ao longo do encontro. Durante sua apresentação sobre redes integradas de atenção, Dra. Anna Carolina Riul Messias lembrou que, embora existam avanços regulatórios importantes, os tempos de acesso ainda representam um obstáculo para muitos brasileiros.
A especialista também destacou a regulamentação recente da Política Nacional para a Prevenção e Controle do Câncer (PNPCC), que formalizou a navegação de pacientes como uma estratégia estruturante do cuidado oncológico.
A experiência prática nos serviços também foi tema central. Representante Regional da SBOC em Belo Horizonte (MG), Dra. Carolina Martins Vieira ressaltou que a navegação já acontece em diferentes níveis do SUS, mas ainda enfrenta desafios de integração.
“A navegação leiga já existe na forma dos agentes comunitários de saúde. Precisamos aproveitar essa experiência e fortalecê-la. Um dos grandes desafios continua sendo garantir a contrarreferência e devolver o cuidado adequadamente para a atenção primária”, comentou.
Representando uma realidade distinta, Dra. Maureen Castagnaro, de Roraima, chamou atenção para as dificuldades enfrentadas pelos pacientes de regiões mais afastadas dos grandes centros.
“Não adianta incorporarmos tecnologias cada vez mais sofisticadas se o paciente que está na ponta não consegue sequer chegar ao diagnóstico. Precisamos pensar em logística, prevenção, acesso e em planos terapêuticos compartilhados”, argumentou.
Ao encerrar o encontro, Dr. Roberto de Almeida Gil reforçou a importância da cooperação institucional para a consolidação das políticas públicas. “Quem está do outro lado da minha trincheira é o câncer. Precisamos deixar o ego pessoal e institucional do lado de fora e dar as mãos para construir políticas duradouras que garantam acesso e qualidade para os pacientes,” defendeu.
Uma das sessões mais concorridas da manhã propôs uma reflexão pouco convencional sobre a oncologia. Em Entre Arte e Medicina: O Câncer Retratado ao Longo da História, especialistas utilizaram pinturas, cinema e movimentos artísticos para revisitar a história do câncer e da medicina.
O mastologista Dr. José Tadeu Avelar apresentou obras clássicas nas quais é possível identificar sinais compatíveis com tumores mamários, incluindo representações atribuídas a modelos retratadas por mestres da pintura europeia.
Segundo o especialista, diferentes artistas registraram, mesmo sem intenção médica, sinais e manifestações que hoje podem ser reconhecidos à luz do conhecimento atual.
Já a Presidente da SBOC, Dra. Clarissa Baldotto conduziu um percurso pela história do câncer de pulmão utilizando movimentos artísticos como paralelo para as transformações da própria medicina. “A arte vem da gente. Ela reflete nossa história e as diferentes áreas nas quais atuamos”, introduziu.
Ao associar períodos como o Barroco, o Realismo e o Impressionismo aos marcos da oncologia pulmonar, a especialista mostrou como a evolução científica acompanhou profundas mudanças sociais e culturais.
Durante a apresentação, relembrou que a cirurgia foi o primeiro tratamento efetivo da doença e destacou avanços que transformaram completamente o prognóstico dos pacientes. “A cirurgia que um dia oferecia sobrevidas muito limitadas hoje pode proporcionar cura para muitos pacientes”, explicou Dra. Clarissa.
A Presidente da Sociedade também relacionou obras que retratavam o hábito de fumar ao crescimento da epidemia de tabagismo ao longo do século XX. “O aumento do consumo de cigarro foi acompanhado pelo aumento da mortalidade por câncer de pulmão. Hoje temos razões para celebrar: o Brasil conseguiu reduzir em mais de 50% a taxa de adultos fumantes nas últimas décadas.”
Outro momento marcante da apresentação foi a contextualização histórica do surgimento da quimioterapia a partir de observações relacionadas à exposição ao gás mostarda durante a Segunda Guerra Mundial, um episódio frequentemente citado como marco no desenvolvimento dos tratamentos sistêmicos contra o câncer.
A programação da manhã também contou com o workshop “Negociação para Mulheres: valor, influência e liderança na carreira médica”, que discutiu estratégias para fortalecimento profissional, comunicação de valor e desenvolvimento de liderança feminina na medicina.
Ao longo do dia, o Congresso SBOC 2026 reforçou um de seus principais diferenciais: a capacidade de reunir ciência, gestão, inovação, humanidades e políticas públicas em um mesmo espaço. Das discussões sobre organização do sistema de saúde às reflexões provocadas pela arte, as atividades mostraram que o avanço da oncologia depende não apenas de novas tecnologias, mas também da construção de redes de cuidado mais humanas, integradas e acessíveis para todos os pacientes.
A tradicional sessão de pitches reuniu startups que vêm desenvolvendo soluções voltadas para assistência, pesquisa clínica, inteligência artificial e medicina de precisão. Em sessão organizada pelo Dr. Felippe Lazar Neto, coordenador do Comitê de Tecnologia e Inovação da SBOC
Participaram as empresas de tecnologia ONKOS, Lila Saúde, Aljava, Turi Saúde, iHealth e Asani. Felippe Lazar Neto destacou a qualidade dos projetos e o potencial das novas tecnologias para contribuir com a transformação da oncologia brasileira.
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